17.7.17

Esquecimentos...



Já tinha marcado de encontrar um amigo e foi se arrastando. Cabeça nas nuvens. Sonhos revirados. Deveres e  prazeres misturados. De todo jeito. Amores trocados. Entre tantas confusões, lá se foi o guarda-chuva. Enquanto espera, parado, na praça, o amigo liga e ele pergunta onde pode comprar outro, porque a previsão é de temporal. Na papelaria. Remarcam, então, na porta da papelaria.

Lá vai o personagem. Entra quieto e pede à atendente um guarda-chuva. O mais barato, porque vive perdendo...  A moça, nos seus 20 anos, dá uma olhada nos produtos e fala: "tem esse, R$ 8, está bom?". Ele diz que sim. Ela embrulha o guarda-chuva e ele se apressa em pegar a carteira na sacola. De repente, ainda comentando sobre o guarda-chuva perdido, diz: "inclusive, o guarda-chuva que eu perdi era igual a esse aqui em cima, foi esse que você trouxe?". Incrédula, a atendente o olha, um pouco sem graça e diz: "não, você o retirou da sacola agora". O personagem, também perdido, comenta que não lembrava nem que o tinha colocado lá, achava que tinha perdido e nem sabia, de verdade, que cabia na sacola...... Pede, desconcertado, desculpas e para cancelar a compra...

Sai da papelaria rindo, pensando que a atendente o deve ter achado louco. Fica esperando pelo amigo exatamente em frente. Mas se distrai e quando percebe, o amigo já está dentro da papelaria o procurando. Ele não quer entrar, então olha, tentando chamar o amigo discretamente, mas é a atendente que olha, por detrás, acena, rindo, e pergunta: "esqueceu alguma coisa?".

#fim

#meiodesligado

25.6.17

Sensibilidade

"Adulto" triste. Criança chega, na maior agitação, mal olha para as pessoas ao redor. Sai correndo para varanda. Alegria total, pega um brinquedo, corre em volta da mesa, olha o céu, busca o cachorro. O adulto fica parado, sentado, só observando.

A criança é destemida, bastante agitada e brincalhona. Na semana anterior, já tinha caído acidentalmente e batido com a cabeça. É preciso observá-la, para que a criança não resolva escalar nada ou se atirar onde não deve. Agora, todas as vezes que quase se machucava, estendia as mãos ao rosto, no "doi doi".

Correndo de um lado para o outro, de repente, a criança se dá conta de que não está sozinha. Larga os brinquedos e olha fixamente para o adulto, ainda sentado, quieto, ainda triste, só observando.  A criança caminha, então, intrigada, em direção ao adulto, com a testa franzida.

Para a mais ou menos um metro, olha fixamente para o adulto e estende as mãos até a cabeça, no "doi doi". Incrédulo, o adulto entende que a criança, de 14 meses, está perguntando se ele está machucado. Depois da "pergunta", ela se aproxima, dá um abraço, enquanto o adulto tira os óculos e enxuga a lágrima saliente.

E a criança sai correndo de novo, para brincar e ser feliz. Porque tudo é assim na vida. Os contrastes. Tristezas somente para preceder novas alegrias.



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A criança, depois, fica estirada na cama, envolta em brinquedos, enquanto o adulto tenta, inutilmente, ler. Daqui a pouco, aponta para as folhas bagunçadas e repete "a, e, i, o, u". Mal sabe ela...

21.6.17

O mundo vai acabar...e ela só quer dançar....

Personagem angustiado. Espera, espera, espera.
Para quê? Pelo quê? Não há nada falado.
É tudo o mesmo, igual, não há instante.
Surpresa porvir. O telefone toca.
É um outro convite. Ele nem pensou. Nem quer.
É a surpresa impossível que arde. Tem trabalho para fazer.
Tem trabalho para entregar. Que o personagem quer receber.
O tempo arrasta e a tela não muda. Cabeça parece máquina antiga.
Mesma tecla, repetida. Repetida. Repetida.
O telefone toca de novo. Sábado passado, à noite, à espreita. Nem quer.
O trabalho para entregar. Não termina. E a tela não muda.
Personagem angustiado. Espera, espera, espera.
Amigos, amigos, amigos, convites, luzes, outros personagens.
É hora de dançar. Veste alma. Veste vermelho. Express yourself.
Sapato alto. Todos os apetrechos. Os eus de viagens. Todos a reboque.
Uma, duas, três. Todas as memórias outra vez. O rosto que lembra.
Outra história. Outro samba. Outros fonemas. O rosto que cerca.
Outros amigos, outras festas, outros perigos. O rosto igual. Gêmeo memória.
Mesmo nome. Metade revival, metade "incesto". Outro convite. Outra noite.
Diversos outros corpos. Copos. E outra fase. E outro papo. E a memória....
Personagem angustiado. Para quê? Pelo quê? Não há nada falado.
Fecha os olhos e apenas lembra. Vermelho. Luz. Varandas e pensamentos.
Libertinagem. Beijos liberdade. Beijos sem amanhã. Mais uma música para cantar.

"Porque o mundo vai acabar  e ela só quer dançar.... o mundo vai acabar...
Ela só quer dançar, dançar, dançar".....


20.6.17

Adeus

Existem coisas na vida com desfecho
Existem coisas que são só promessas
Seja como for, é melhor o olhar para o lado bom 
o sentimento, a inspiração
Tem sempre uma certa poesia na promessa
Tudo que podia ter sido e não foi
O amor que fica perdido no ar
Sem briga, sem dor, sem pesar
A escolha que você não conseguiu fazer
A voz que você não deu vazão
Amor sempre sendo
Em algum momento do passado, seja como for
Até expectativa vira, na amiga "apaixonada"
pela sua versão de outrem
Torcendo pela virada
Até ser em outro alguém, outra história
Menos mascarada, mais vivida e realizada
Livre, como a gente deveria ter sido
Como o personagem definitivamente é.




4.5.17

2 meses. 2 meses. 2 meses. Umas seis vezes....

2 meses. Férias. 2 meses. África. 2 meses. Aniversário. O início de um novo ciclo. Se as coisas continuam sacudidas no mundo, melhor o personagem revirar a pele de dentro para fora e respirar alegria interior.

Concentração. Sempre uma questão, novamente, com o perdão das pobres rimas... Personagem envolto em mídias e redes sociais de desilusão. Do pior do ser humano. Da direita, ultra... ultra entristecedora.

Meses de silêncio. O problema não é a falta de pensamentos. Dizeres. Voz. Falta mesmo de crença nesse estranho "porvir atual"... O estagnar em uma cidade, ainda que no eterno sonho, ainda que por escolha, é angustiante. Personagem Hermes, acordado; mensagem de devaneio aos deuses pulsando...

Concentração. Sempre uma questão. Tem África. Tem Colômbia. Tem Rio. Tem Rio. Tem rio de indecisões e saudades. Tem surpresa. Mas tem corda bamba para sacudir a tão certa espontaneidade, no sopro, no limite da ética, tão auto-cultuada. Personagem atônito, congelado.

"Saudade é despedida
Morrer um dia vem
Mas amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo
E nele sempre cabem de vez (...)"



- / -

Entre Mary Shelley, Bowler, Lobo, Bardin, janelas e mais janelas, mas o som vem lá do corredor. Ecoa o tia, tia, tia. E lá vai o personagem, aberto em sorrisos. De absorto em pensamentos a encontrado em risadas. Gargalhadas sem fim. Corre aqui, corre para lá. Esconde ao lado. Papel no chão é engraçado. Espelho em si, no passado, logo ali, parado, de frente. Corre aqui, corre para lá. Esconde. Dá risada. Personagem escolha. Parar temporariamente não é para parar. Não para esse personagem.

Estende os bracinhos e não há espaço para mais nada... Só gargalhadas entre um par de olhos profundos de um futuro cheio de esperança.

31.5.16

Tudo ao mesmo tempo agora, ontem e quiçá amanhã...


Agora, eu entendo flores e tapa na cara.
E o que nunca retorna.
Sempre a distância. De um país.
Outro país. Mais outro. Quase uma vida.

Uma visão embaçada.
O tempo que passa.
De uma mesma paisagem conturbada.
São só lágrimas de decepção e decepção.

Einstein. Diferentes. Realidades. Concomitantes.
Decepcionantes. O que não é o mesmo. Mas é igual.
É triste. É um exílio em si mesmo.

Tantas bocas. Tantas promessas. Palavras vazias.
Cheias de promessas. No esteio de viagens e viagens.
De realidade, de sonho, passado e futuro.


12.2.16

Vários passados atuais

De repente, logo ali, aquele sorriso de outrora. Camarada.
Tanta história, tantos planos, tantas viagens conversadas.
O que a memória esvanece, a presença sopra, alegre, faceira.
Dez anos e três países. Entretanto, muitas vidas.

Lá vem o churrasco. A viagem. Os animais. E as fotos. Nossas fotos.
O estalar de dedos do aqui ignora o tempo e lá vêm as risadas.
O humor ácido. As diferenças culturais. A falta de memória.
E até mil palavras trocadas de três idiomas.

Ainda somos os mesmos. Mas somos novos personagens.
Carregados de tantos anos, desenganos, sem danos...
Lá vem a nova festa, praia e travessia.


Agora temos os óculos. Para nossos lindos olhos trocados.
Quilos a mais e a menos, cicatrizes em alguns lados.
Mais carregadores, vários aparelhos, sem tempo para carregar. Falar.
Email ou postal? E você (eu) é meio diferente, também, meio tradicional.

Aquela placa é igual. O cenário é totalmente outro.
E tantas outras cachoeiras de emoções. De ausências.
Os longos caminhos continuam, cheios de músicas e risadas.
Com direito à noite barulhenta, sonolenta, confusa, calada.

E tem álcool no ar, na degustação, na cervejaria.
Bebida nova. Desfile. Gracejos. happy hours.
Mais gente doida, diferente, viajante.

E ainda existem os mapas. Oficiais ou rabiscados.
Tram brasileiro. Esquinas e ladeiras de cultura.
A busca pelo ambivalente aloe vera. Por frutas tropicais.
Nossas verdades internacionais. Nossas experiências individuais.

Um longo trajeto para dentro. Do passado. Do país.
Muitas horas. De estrada. De silêncio. De Abstração.
Quarto de tamanduá, luz de fazenda, janela sem fechar.
Logo ali um novo cassowary, agora quadrúpede; e Gigi.

De novo os peixes ao fundo, na memória e no agora.
Tem gruta, tem fruta, macaco biruta, sapo batuque.
Salto e foto de dourado. Cotia, jacaré e porco do mato.

Despedida de criança, boiando na correnteza.
Carona para mais um papo animado. Sem nome na parede.
Loucura de todos os santos, ode à cachaça.
E, de novo, a estrada. Com fotos. Hebraico.

Mais um retorno. Mais uma semana. Até a próxima vida.
Ainda tem mais festa. Atração popular. Praça - de guerra - lotada.
Chá de sumiço. Parque imperial. Desfile. Paraíso do passado.
Churrasco, família e até compras compartilhadas.

E, de repente, é isso. Mais um táxi. Mais um aeroporto e mais lembranças.
A casa vazia. O coração pleno. Transbordando de vários passados atuais e misturados.
Daquela felicidade cheia de saudade. Doída. Até a próxima vida.