29.4.05

Noite III

Quase vai tudo numa onda
Fica a sensação pendurada no acaso...

Um sorriso no inesperado...
Venham, surpresas...

Lá longe. Pareço me ver.
O flagra do proibido.

Mais longe. A promessa.
Eterna . Como água secando... Lentamente.

A lua? Nem tímida.
Como companhia? Além de mim?
Uma estrela única... Insistente...

De repente, perto do mar
parece que as estrelas se despem
em tristezas.

E brilham.
Enquanto a vida escorre sob meus pés.

Vontade de mergulhar...
De cabeça. A água gelada explode...

Tão ondas. Tão sonhos...
Até olho para trás...

26.4.05

Noite II

O cigarro queima.
Roupa. Ilusões.

Incêndio de idéias.
Só vejo pegadas.
Não há fim...

A cinza, intacta.
Mas vai desintegrar...
Universo normal!

Eu e Natureza.
Escultura imóvel.

A lágrima escorre dúvidas.
Repousa, inerte, na luz adiante...

24.4.05

Noite de um personagem I

Uma noite fria
bem como minha alma.
Distante dos sonhos...

O mar? Revolto.
Aguaceiros que não param.

Lembranças seduzem.
Não consigo escrever!

Sombria a montanha
na penumbra do momento ideal.
Passado!

A correnteza vai.
E tem de trazer o novo.
A descoberta.

Não vejo horizonte.
Como em mim...

19.4.05

Sempre Clarice

[ Na falta de tempo, faço aqui minha homenagem para a grande Clarice Lispector!!!]


"Tenho que falar porque falar salva. Mas não tenho nenhuma palavra a dizer. O que é que na loucura da franqueza uma pessoa diria a si mesma? Mas seria a salvação". Clarice Lispector

14.4.05

Marcas

A névoa subindo. Sumiço no ar. A ilusão que cultivamos. Como cinzas se espalhando na água. Descendo a um fundo qualquer...

‘Chuvas’ na parede. Sinais do tempo. Listras e listras. Formas de cinza. Como lágrimas marcadas.

Um céu que se recria nas nuvens intermitentes. Desenhos criativos que seguem sonhos e imaginação. A luz que se apaga. E que se acende. Sob o vidro estampado de casual intempérie.

Até a brasa se apagando. Queimando a não- consciência de um instante.

Uma forma geométrica qualquer. Distâncias entre pontos da imaginação. Cultuando pedaços de utopia. No que se quer criar. Pensar.

Ramos que crescem em determinada direção. Natureza vívida e imprevisível.
A teia de aranha, magnífica, contra a luz. Um mosquito bailando em existência. Defrontando inquestionável cadeia alimentar. Aranha “patinando” como um ato teatral para alimentação e cruel sobrevivência.

Luzes ao longe que desenham castelos piscantes. Ondas vibrantes; som. Um rio “escorrendo”; um ‘mar’. Um raio. Um trafegar de carro. Trajetos de energia sonora que não se vê, não se sente e não se costuma vislumbrar. Marcas dos sentidos que nos cercam, mas não se certificam na consciência.

Sombras. Em galhos flutuando no ar. Quase como um balé natural. O espetáculo se faz. Na ignorância do entorno corporal. Na matéria, orgânica ou não. No ser, vivo ou sobrevivente. Brisas que atravessam sorrateiramente. Um sussurro incólume.

Como ondas na água. Indo e vindo no mais maravilhoso som inaudível do sonho visual. E ‘aqui fora’, neste personagem? Tantas marcas. Não importa o marco que pontuem...

Daniele Sorris

"E são tantas marcas que já fazem parte
Do que eu sou agora mas ainda sei me virar
Eu tô na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Ve se não vai demorar..."


Lanterna dos Afogados - Paralamas do Sucesso

6.4.05

Maior Abandonado

Liberdade. Liberdade. Essa o personagem não tem. Quer se prender a alguém, mas não pode. Não tem a liberdade de escolha. Está ali, mas não é visto. Irremediavelmente preso aos encantos de alguém. Desejando o acalanto dos beijos, o 'mantra' da voz e o quadro do sorriso... Tudo na memória como marca de felicidade única. Momentânea. Fugaz.

Liberdade, liberdade. Essa o personagem não tem. De dormir abraçado. De acordar O ALGUÉM no meio da noite, explorando um corpo. Infinito mais toques e beijos.

Que plenitude pode alcançar longe do "amor-ideal-real"? Aquele, com flores e problemas. Seria infantilidade (Who knows?)?

Liberdade? Onde? Se o amor é proibido, se o sentimento é tolhido até nos sonhos. Para quê? O poder da escolha é a maior liberdade; esse, o personagem não possui.

Um personagem que concedeu liberdades, outrora tão “conquistadas”. Um personagem livre de “pré-conceitos”; ao lado de alguém, livre, ousado, franco. E cá está este personagem, preso a um silêncio, da não escolha, do não compromisso. Nem respiraram desejo. Nem desejaram tentar.

Liberdade? Essa, o personagem não tem. A liberdade de viver junto. Qualquer outra pode ser compartilhada; a liberdade de sobreviver separado, a liberdade de promover a interseção do infinito. Mas, aquela? Aquela se dissipa, culpada, ao menor sinal de pensamento.