25.7.06

Seja como for...

Estava aqui pensando... que personagem pode ser tão feliz.... Amigos tão verdadeiros. Que amam como você é, meio torto, meio indefinido, meio na dúvida quanto aos mil destinos que a vida seduz... Ah, esse é para ser daqueles textos declarações de amor. Desses raros momentos de contemplação de seres. De pessoas. Que não me canso de enaltecer...

Um dia na vida, um tolo personagem chorou o amor que não declarou, que não deixou escorrer, que, temia, fosse desconhecido. Esse mesmo tolo personagem pensa em cada um que ainda conheceu e que já cruzou de novo sua “tola” existência desde então. Ah, esses seres, tão errôneos, tão instáveis, sentimentais, cruéis, egoístas, com cada defeito que só o amor sabe amar. Defeitos em espelho ou defeitos que só um amor verdadeiro sabe sobrepujar.

Esses amigos que lembram deste personagem farrista, marcando e desmarcando repetidas e inéditas esbórnias. Este meu personagem que não se cansa de dizer e amar e lembra de cada sorriso, cada abraço, cada palavra gentil naqueles idiotas momentos de beco. De tristeza. De buraco sem fim. Ou de alegria desmedida.

Este personagem, eterno saudosista de viagens. Viagens. Viagens que permitem o convívio. O estreitamento de laços. O testar de problemas e consciências de paz. De grupo.

Quando um geminiano diz eu te amo. Quando um leonino respeita alguém. Quando um ariano ouve. Quando um libriano decide. Quando um escorpião abre as portas e manda embora. Quando um sagitário libera para a pretensa liberdade. Quando um capricorniano manda viver o inusitado. Quando o canceriano esquece a família e lembra do indivíduo. Quando todos os amigos agem no que acham que é o que vai te fazer feliz... Quando simplesmente um não faz diferença. Mas dois. TrÊs. Uma consciência de momento. De grupo. De sentimento.

Que personagem seria louco de largar? Porém, meus caros, isso não se larga. Descobre ele, eu, o personagem, que amor não deixa de existir, mesmo quando não se diz, mesmo quando se propaga. Ele paira no ar. Como vertigem na montanha, como lembrança, ainda que numa memória misturada, distorcida, requebrada entre individualidade e existência no mundo. Para ser livre é preciso ser tão preso...

Paradoxo de viver que sou eu. E cada pedacinho de mim que representa vocês. Que vai comigo, sempre. Conosco. Com cada personagem que carregamos. Em nós e nos milhares de outros que carregamos. Seja como for....

E que seja como for...

12.7.06

Personagens em dieta....

For those of you who are always dieting and watching what you eat...

1)The Japanese eat very little fat and suffer fewer heart attacks than the British or Americans.
2)The Mexicans eat a lot of fat and also suffer fewer heart attacks than the British or Americans.
3)The Japanese drink very little red wine and suffer fewer heart attacks than the British or Americans.
4)The Italians drink excessive amounts of red wine and also suffer fewer heart attacks than the British or Americans.
5)The Germans drink a lot of beer and eat lots of sausages and fats and suffer fewer heart attacks than the British or Americans.

Conclusion: Eat and drink what you like. Speaking English is apparently what kills you.

17.5.06

We've got to fulfill the book

Redemption Song - Bob Marley

Old pirates yes they rob I
Sold I to the merchant ships
Minutes after they took I from the
Bottom less pit
But my hand was made strong
By the hand of the almighty
We forward in this generation triumphantly
All I ever had is songs of freedom
Won't you help to sing these songs of freedom
Cause all I ever had redemption songs, redemption songs

Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds

Have no fear for atomic energy
Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look
Some say it's just a part of it
We've got to fulfill the book

Won't you help to sing, these songs of freedom
Cause all I ever had, redemption songs, redemption songs, redemption songs

Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy
Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look
Yes some say it's just part of it
We've got to fulfill the book

Won't you help to sing, these songs of freedom
Cause all I ever had, redemption songs
All I ever had, redemption songs
These songs of freedom, songs of freedom

1.5.06

Estou deixando a vida me levar...

Vou deixar


(Skank)

Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Estou no meu lugar
Você já sabe onde é

Não conte o tempo por nós dois
Pois a qualquer hora posso estar de volta
Depois que a noite terminar

Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Seguir a direção
De uma estrela qualquer

Não quero hora pra voltar não
Conheço bem a solidão me solta
E deixa a sorte me buscar

Eu já estou na sua estrada
Sozinho não enxergo nada
Mas vou ficar aqui
Até que o dia amanheça
Vou esquecer de mim
E você se puder não me esqueça

Vou deixar o coração bater
Na madrugada sem fim
Deixar o sol te ver
Ajoelhada por mim sim
Não tenho hora pra voltar não
Eu agradeço tanto a sua escolta
Mas deixa a noite terminar

Eu já estou na sua estrada
Sozinho não enxergo nada
Mas vou ficar aqui
Até que o dia amanheça
Vou esquecer de mim
E você se puder não me esqueça
Não não, não quero hora pra voltar, não
Conheço bem a solidão me solta
E deixa a sorte me buscar
Não não, não tenho hora pra voltar, não
Eu agradeço tanto a sua escolta
Mas deixa a noite terminar!

22.3.06

Enjoy The Silence

Enjoy The Silence
Depeche Mode
Composição: Martin L.Gore

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can´t you understand
Oh my little girl

All i ever wanted
All i ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm

Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable

All i ever wanted
All i ever needed
Is here in my arms...

7.3.06

Carta de um personagem

The Unsaid

Faz semanas que não sei de você e às vezes parece que há uma vida inteira entre nós. De novo. Tenho pensado em você cada segundo do meu dia. Posso lembrar de extensos e intermináveis diálogos imaginários com você. Imagino o desabafo, a risada, o aconchego. Penso nos seus doces olhos, sempre como o céu, imprevisíveis, lindos, variáveis e inalcançáveis... Penso nos seus lábios, sua língua procurando a minha, quase sinto o toque suave, o carinho, o encontro de peles; tremo sozinha e me calo.

Imagino como você deve estar. Bem? Espero que sim. Lembro do seu pai, sua família, seus problemas, sua vida. Preocupo-me, preocupo-me. Demasiadamente. Então me recordo que sou a mentira, que sou o jardim secreto, cheio de rosas e espinhos. Que sou a lembrança sofrida do passado. Que sou a dor esquecida num canto da memória. Que sou a dúvida, sou as possibilidades sem certeza.

Lembro que, para você, posso ser a agressão. A falta de comunicação. Para você, posso ser muito pior que uma situação sem saída. Que eu não entendo e (repetidamente) jamais me fiz entender. Como eco, vêm as palavras “prefiro que saia da minha vida”, “eu queria a sua amizade”... Então eu simplesmente me enterro em mim mesma e não sucumbo ao impulso de ligar para você, pedir perdão por qualquer coisa, dizer que amo você mais do que nunca e que me sinto ausente, perdida, longe de você.

Outro dia eu li um conto, inspirado em fatos reais. Publicado por um terapeuta, reproduzia a carta de uma paciente. Tempos depois, ela afirmava que ninguém é capaz de viver bem, amar, verdadeiramente, se não é capaz de viver sozinho, de se amar. Por Deus, como eu, logo eu, fui também enveredar por este caminho de viver um outro alguém, de se perder num olhar, de desviar a rota para cruzar um caminho. E ficar ali. De verdade. No melhor sentido que essa tola palavra puder ter.

Tento me lembrar todos os dias o quanto sou feliz, o quanto tive domínio sobre minha vida, minhas escolhas. Quantas pessoas boas eu tenho o privilégio de conhecer. Quantos momentos felizes perpassam minha vida. Mas então eu lembro do seu sorriso, sua voz e tenho aquela sensação da gargalhada no ar. De um arco-íris sumindo, um espetáculo que se faz e se desfaz num piscar de olhos. Como uma pegada, marcada na areia, no peito, na alma e então só há vestígios, daquilo que não mais se ‘sabe’.

Dentro de mim, carrego a certeza do que não sei. Irônico, não? Carrego um sentimento tão intenso que se esgota em palavras; tolas explicações. Diante disso, só lembro de você e cada segundo que não estive e não estou – nem virtualmente- ao seu lado. De que vale isso tudo sem você, sem saber de você? É tão magnânimo, se me permitem ser assim, mais uma vez exagerada, que não importa o uso, mas a existência, como uma pequena chama. Se sou amiga, se sou namorada, amante, parceira, ouvinte... Este sentimento tudo abriga.

Situações, vaidades, angústias e saudades nos arrastaram em desentendimentos, mas o inexplicável se esconde detrás desses sentimentos vis. Penso, penso nisso com tanta força, que me lembro que eu acredito nisso. Eu, logo eu, eu acreditei, eu fiquei, eu me torturei de frustração e saudade, crendo que algo iria, por fim, encaixar-se... Mas... Você disse vá... Você soltou as amarras, de vez, do que parecia uma conexão inexplicável. Você desacreditou na ligação. Fez com que, de uma vez por todas, eu me achasse lunática por não pensar, não entender, porém, ainda assim, sentir tão vibrantemente.

E, nesse instante, volto a ouvir a sua voz imaginária dizendo para eu sair de sua vida, para eu deixar você em paz, de uma vez por todas. Para eu permitir, com minha ausência, que você volte a essa vida, que é só sua, que só você sabe, à qual não pertenço.

Nesse mundo tão seu, na qual vaguei em sensações, sem palavras. Feeling. Feeling. Marcos daqueles “telefonemas tremidos”, daqueles silêncios de expectativa. Daquela espera febril pelo encontro físico, carnal e metafísico... Aquele, aquele abraço, que, como num filme, isolou-me, com você. O mundo ao nosso redor, numa Paraty histórica, da nossa história. Aparências, capas nossas, que se reconheceram num olhar, num sussurro de nomes. No sopro de desejo e paixão.

Parece aquela coisa de cinema. Fora da realidade. Eu vejo você cruzando o salão do hotel e, em meio a animais que me distraiam, sua aparição na minha frente. Materialização de sonhos. Estrela cadente na minha cidade. Rosto cansado. Meus problemas. Seus problemas. Tantos...

Aquele beijo, olhos nos olhos, seu corpo rente ao meu, uma eternidade em segundos. Eu sinto seus pés sob meus dedos, num momento em que a tela enorme do cinema parecia uma realidade paralela. Seu calor, seu cheiro, presença tão real ao meu lado, como se eu entrasse em você e sentisse você, de novo, em mim.

Meus lábios, depositários de tanto desejo, repousando nos seus braços, frenéticos, seu gosto imaginário correndo nas minhas veias, paisagem correndo, do lado de fora, do ônibus e da vida de outros. Quaisquer outros.

Seu beijo, no meio da praça. Tanto medo, tanto medo, tanto desejo, meu Deus. De mãos dadas, como crianças, na liberdade de um momento. Na liberdade etílica. Na liberdade de sentir.

Como adolescente, não largando o amor, na porta de casa, na porta do hotel, numa rodoviária, no saguão de um aeroporto. Sempre, sempre me despedindo, a cada segundo, dessa ausência em mim mesma, que você deflagra.

Eu sinto, sinto, sinto... Mas, no final, volto a ouvir a sua voz imaginária dizendo para eu sair de sua vida, para eu deixar você em paz, de uma vez por todas. Para eu permitir, com minha ausência, que você volte a essa vida, que é só sua, que só você sabe, à qual não pertenço. E, como você, eu sinto, eu sinto muito...

'Cris Liebe'

11.2.06

Honey, Are You Straight Or Are You Blind?

Honey, Are You Straight Or Are You Blind?
Elvis Costello
Composição: Indisponível

Who do you see when you turn your eyes down?
Who do you see when I’m not seeing you?
The news is out all over town and all these girls
Are taking turns at being you

Chorus: Well, well, well
You’d better make up your mind
Honey, are you straight or are you blind?

She’s coming in between us you know that she is
I’m not holding on to her but one of us is
My hands are in my pocket, my face is in a book
She could walk ‘round naked and I wouldn’t sneak a look

Chorus

Honey are you straight or are you blind?

She walked in and your eyes flew out the door
You squeezed my hand ‘til the circulation ceases
She’s just a doll like so many more
She’s the kind of doll that you’d like to pull to pieces

Chorus

Well, well, well
You’d better make up your mind
Honey are you straight or are you blind?

6.2.06

É só um carro? É energia de viver...

Sonho de consumo no imaginário popular. Mas é só um carro. Um abrigo, aconchegante, onde este humilde personagem pôde ir e vir

É só um carro, mas foi um símbolo pessoal de perseverança, de sempre fazer o que diz, sustentar a palavra, ainda que antiga: "eu vou comprar o meu carro, novo, quando eu quiser".

E assim foi. Comprar o carro, podendo escolher. Pagamento à vista, regateando preço. Depois foi a diversão de preencher o carro. Aquele curto espaço que transforma só um carro em algo pessoal. O insulfilme que o personagem julgava necessário. O rádio, com cd, parceiro de engarrafamentos, primeira voz na cantoria dos dias bem-humorados. Até a caixa de cerveja guardada na mala, junto à canga de praia, chinelos e, muitas, muitas vezes, malas e malas de muitas viagens.

É só um carro. É só o objeto. Mas a lembrança arde. A primeira viagem, de um carro com apenas 20 km no marcador. Do nada, um carro novo passando em corredeira de uma Trindade cheia de gente, em pleno feriado. Os farnéis dentro do carro, em longas viagens. Biscoitos Globo no engarrafamento.

Carro como abrigo para namoro em final de festa. E, nesse dia, quase foi uma porta. Um ex que já não existe mais; o carro ainda existia com a marquinha na porta...

Uma viagem onde ficou o rádio. Um "Incrível Hulck", de nome, mais conhecido por LOE, todo embaçado do frio de Astolfo Dutra. De manhã, já sem sapato, sem descanso, sem tristeza, era a estrada para o Rio, onde o rádio e a saudade iriam se perdendo. Destes tempos que se vão sem nunca irem da memória....

Um carro quase saltando o marco da vaga porque quem dirigiu deixou engatada a marcha e não avisou...Um carro quase roubado numa rua principal de um famoso bairro no Rio de Janeiro. Um passarinho desgovernado batendo no vidro do carro, na estrada. Um beijo roubado, mutuamente, na carona de um amor antigo, que é sempre amor.

Outra viagem, chuva, engarrafamento, 140 km/h, época sem radar... Muita fofoca de "lulus em trânsito"... A foto em plena curva perigosa, que, de piada, personagens brincavam que quase tinha sido a própria foto do acidente...

Um frio do cão. Outra viagem. Fim do festival de música e de alegrias. Chave do portão quebrada na mão. Carro paradinho em frente à casa. E fechado... Porque a chave do carro estava do lado de dentro da casa, junto ao celular...

Um carro emprestado para levar os presentes de casamento de um amigo, em Paraty. O mesmo carro, buscado, na ânsia de realizar um amor que, até então, nada tinha a ver com o carro. O mesmo carro que levou embora este amor, algumas vezes, com a saudade e todas as ânsias amarradas, bem apertadas, no coração.

Mr Loe no aeroporto, uma vez mais, buscando amigos chegando de viagem. Um outro personagem caçoa o dono do carro: "por que ir buscar amigos no aeroporto com a mala cheia?". O personagem tinha esquecido, mas o carro era espaçoso, o espaço da boa vontade... Os amigos internacionais, alheios ao diálogo, perguntam: "Oh, italian car???".

Incrível Hulck numa outra viagem. Cadê documento às 10:00 horas da noite? O outro carro no conserto, Hulck salvando o feriado de alguns personagens.

Alguém segurando a mão deste saudosista personagem. O carinho na perna. O braço no ombro, motorista no banco do carona. Cabelos ao vento. Jeitinho no cinto de segurança. Muitas caronas e manhãs de sono, indo trabalhar.

É só um carro que agora se vai... O personagem sacode as lembranças e respira fundo. Abre espaço, coração, que o personagem está pegando carona na vida e aí virão muitas, muitas alegrias, que o nosso amor não é roubado. É emprestado, vivido, queimado, renegado, mas, como a energia, não se perde...

3.2.06

Máquina do Tempo

Máquina do tempo: 3 x 2 cm. Desenho fosco, azul. Branco também. Cheiro de borracha...

Fechar os olhos...

Escola. Crianças. Distribuição de materiais. Professores conversando.

Cheirinho de almoço. Cortando batatas, "ajudando" "tias" na cozinha.

Distribuição de brindes. Babaloos. Vozes. Pessoas pelos corredores.

Brincadeira no pátio. Fuga para atazanar o cachorro da moça da cantina. E o giz de côco?

"Nossa, essa é a irmã mais nova..."

Correr. Correr. Correr. Pular. Bagunça. Barulho.

"Posso brincar, posso brincar?"

Ir ao cinema. Sozinhas... Do outro lado da praça...

ET no cinema. Alguém lendo para a pequenina.

Frases soltas. Momentos e momentos.

"Ei , já fez o dever da escola?"

A máquina do tempo é uma simples borracha de apagar... simples como a vida de uma criança...

26.1.06

De Amor e de Sombra

“Sorriram aliviados, divertidos, trêmulos, seguros de que não pretenderiam uma aventura fugaz porque foram feitos para compartilhar a existência como um todo e assumir juntos o desafio de se amarem para sempre.”


De Amor e de Sombra – Isabel Allende

21.12.05

Morrer...

"(...)Não vive aqui, Viver aqui, o que se chama viver, não vivo, Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida, Você não é a vida, Sou muito menos complicada que ela, Alguém escreveu que cada um de nós é por enquanto a vida, Sim, por enquanto, só por enquanto, Quem dera que esta confusão ficasse esclarecida depois de amanhã....estou cansado de mistérios, Isso a que chama mistérios é muitas vezes uma protecção, há os que levam armaduras, há os que levam mistérios(...)"

"E como as esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo, poderia ser que ela o aguardasse à entrada do prédio com um sorriso nos lábios e a carta na mão(...)"

As Intermitências da morte, morte assim minúscula quase até o final deste maravilhoso livro do José Saramago....

13.11.05

Olho muito tempo o corpo de um poema...

"olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas"

Ana Cristina Cesar

|Pensei até em mudar este texto, colocar algumas das músicas que rondavam a minha cabeça após o excelente show que assisti ontem. Mas o tempo está curto. Agradeço os e-mails recebidos, peço desculpas pelo sumiço e, exatamente por isso, vou dar uma parada -temporária, assim espero- com o blog. Logo, se tudo der certo, estarei alimentando os blogs novamente. Abraços, Dani|

31.10.05

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

"Chega um tempo em que não se diz mais: meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

Carlos Drummond de Andrade

21.10.05

Darren Aronofsky's film

"If you want to find the number 216, you will be able to find it everywhere. When your mind becomes obsessed with anything you will filter everything else out and find that thing everywhere... 320, 450, 22, whatever!!! You've chosen 216 and you will find it everywhere in nature!"

Pi - Darren Aronofsky's film

19.10.05

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

13.10.05

O retorno

O cenário de uma rodoviária após um feriado é capaz de deixar qualquer um ensandecido. Pessoas que rodam de um lado a outro, desnorteadas, com apetrechos e malas entupidas de coisas muito além do que costumam precisar. Apressadas, tentando esgueirar-se o mais rápido possível entre a multidão de viajantes com parentes, amigos; todos com os rostos chorosos que costumam marcar as despedidas.

Como quase todas as pessoas que lotam a Rodoviária Tietê, na cidade de São Paulo, ela vagava entre os guichês à procura de uma passagem de volta para casa que, nesses momentos, sempre ganhava um aspecto ainda mais saudosista.

Boa tarde, eu queria uma passagem pro Rio?”, “Passagem pro Rio? Estão esgotadas”. A cena se repetiu algumas vezes até que ela, insistente, quase desesperada, ao se lembrar dos compromissos marcados para o seu retorno, tentou uma das últimas companhias. “Passagem pro Rio? Olha, a companhia colocou outro ônibus porque a procura está muito grande. Horário de 23:30...”. “23:30?! Mas são oito horas da noite?!”. O atendente do guichê olhou, impassível, para a incrédula compradora e acrescentou: “Olha, a senhora vai comprar ou não? A fila está grande, cheia de gente querendo comprar pra amanhã. E, quer saber, é a última desse ônibus...”. Vendo-se sem opções, ela comprou.

E agora? Seriam três horas e meia de espera. A primeira reação foi de perplexidade. Ela sentou-se num banco perto dos orelhões tentando “digerir” a idéia e planejar o que fazer. Um amiga tinha pedido para ela ligar avisando o horário da passagem, mas ela resolveu não deixá-la nervosa. Optou por um passeio pelo Shopping D, ao lado da rodoviária.

Mas como quase sempre ocorre durante uma longa espera, o tempo não passou e uma hora depois ela retornou para a rodoviária. A confusão de pessoas indo e vindo continuava, parecendo até maior. Gente saindo do metrô, gente saindo dos ônibus, chegando do feriado, gente pegando táxi, gente na fila do banheiro, gente, gente...

Cansada de andar, cansada de carregar o peso de sua mala, ela ligou enfim para a amiga, sentou na mala e ficou mais uma hora ao telefone, sem culpas pelo gasto, afinal, não era um interurbano...

Mais da metade do martírio de espera já havia passado e o cansaço já dominava o corpo. Resolveu comprar logo um novo ticket do metrô para o próximo retorno. A fila de compra, sempre enorme, consumiu mais uma meia hora... “Bem dizem que tempo é dinheiro...” – brincou.

Ela ainda entrou numa loja que sempre chamara a sua atenção, mas que nunca tivera “tempo” de olhar: Dinho Presentes. Comprou alguns souvenirs e seguiu para os quiosques da Praça de Alimentação. Após se conformar com o fato de que nenhum deles tinha coca light, comprou um suco, alguns biscoitos e sentou.

Os minutos finais ( seriam?) seguiam enquanto observava os apressados. 23:20. Quase como quem ia receber um prêmio, ela desceu até a plataforma número quatro.

Casais se despedindo, gente chorando, crianças sonolentas, lanchinho nas mãos, detector de metais na mala, entrega da passagem preenchida.... enfim, poltrona 22 do ônibus executivo de dois andares, horário especial; ao lado da escada. Adeus São Paulo. “E quem vem de outro sonho feliz de cidade, aprende depressa a chamar-te de realidade...”.

Oito horas depois, já acordada, ela avistou outra rodoviária na “cidade maravilhosa”: Novo Rio. Apesar do ônibus ser direto, devido aos congestionamentos, houve um atraso. Chegada enfim? Não. Engarrafamento de ônibus já antes da Rua Rodrigues Alves... Era a volta do feriado em outra grande cidade... Descanso? Imagina... Ela foi trabalhar com mala e tudo depois do feriado. Saltou do ônibus e viu gente, gente, gente... todos acelerados...

3.10.05

Cheiro de Morte

No ar, só sangue. Aquele cheiro de restos. Um breve piscar de olhos trazia aos ouvidos o gemido.

Uma dor profunda, quase um pedido de socorro. Um medo e um desnorteio. A tentativa de fuga. A sensação do embrulho no estômago e, de repente, aquele abandono. Como quem chora e desiste. Pronto, ali estava. Podia fazer o que quisesse com ele.

Dele, só a carne, só fisiologia, porque o espírito tinha voado numa lamúria sem dono. Depois, era só a matéria; vil, suja. Olhos esbugalhados, fixos, fitando aqueles que prejulgava como algozes; carapuça da raça-humana. E ali ficou, deitado. Nem água, nem comida, nem descanso, nem sonhos, nem vida.

Os olhos perdidos iam perseguindo, sem dó, nem perdão. E, por todo lado, era só sangue, era só aquele, aquele gemido. Eufemismo de morte, no rastro de liberdade...

Tigre, Tigre, Tigre; que assim seja!

27.9.05

Diário infantil de um personagem

Ai, Peposo. ‘Me leva’ de volta. Aqueles abraços sem fim. Tardes sem propósito, inconscientemente seguindo na direção do acaso. Sem questionamentos. Sem decepções quanto ao óbvio da humanidade.

Traz de volta aquela mente sem dúvidas. Em nenhuma busca desenfreada. Só o momento. Só o rir. Só o agora. Que infelizmente já é ontem...

Peposo, arraste-me contigo para os delírios pueris, os sonhos cheios de magia e ilusão... Leve-me hoje, arrastada, como eu, que te levava, abraçado, amassado, junto a mim como se fosse parte...

Máquina do tempo para a foto: o sorriso, bicho de pelúcia nos braços, um instante de felicidade despropositada. Aí se refugia o segredo da alegria...

Vamos assistir à televisão fazendo piquenique, na sala, com farinha Nestlé e Nescau... Dentro da casinha da Mônica... De pano... Vendo família Flinstones, He-man, Caverna do Dragão... As crianças perdidas...

Ah, as crianças perdidas... Acho que Caverna do Dragão é uma grande metáfora para o crescer. Quando a gente passa a ser “como nossos pais” e nos perdemos do simples, do óbvio, verdadeiro... Quando temos de abdicar da magia, dos poderes, do "unicórnio de nós mesmos"... A lenda da pureza, da lealdade...

Que farei hoje eu? Não posso abraçar e chorar com o Peposo... Ele não fala mais comigo, meu Teddy das cavernas e Tupiniquim... Não existe um Mestre dos Magos do mundo real...

Existem milhares de Vingadores na busca eterna pelos “poderes” das “crianças perdidas”... Cheios de tramóias, almejando “invencibilidade”...

Precisamos sair da caverna de nós mesmos! Deixar invadir a luz para ressurreição de sentimentos como lealdade, fraternidade; os eternos poderes do amor...

Vem, Peposo. Calado. Sujo. Desbotado. Olhos foscos e lábios sem cor. Vem. Você fala comigo sim... É só eu me reeducar para ouvir. Você e ao mundo. Vem...

21.9.05

Estilhaços de humanidade

A criança chora no sinal todos os dias. Olhos remelentos. Vestindo fome e desespero. O irmão mais velho, que nem é tão mais velho assim, vende doces.

Sabe aquela mendiga pedindo esmola todos os dias? Rodeada de cachorros, vestindo trapos, estendendo a própria mão... Logo ali na esquina...

A trocadora contando e recontando o mesmo troco, temendo o real que vai faltar na merenda dos filhos, se descontado. Aquela mãe que agoniza o filho preso, pouca idade, seduzido pelas oportunidades fugazes do tráfico.

Um despertador para realidade. Aquela da qual tanto se fala e pouco se vê. Indo para o trabalho, agenda lotada, o cotidiano esquece a agonia daqueles que “sobrevivem” ou vivem à parte da sociedade.

Mas o sinal abre. O telefone celular toca. E é o fim da “humanidade”. Ou o começo... em um longo dia de afazeres “produtivos”. A justificativa do salário no final do mês.

Tudo bem. Lar mais uma vez. Deveres dos filhos feitos. Comida durante o jantar. Televisão no jornal da noite. E mais um desabamento... Uma família que perdeu tudo. Uma? Uma apareceu na televisão, esvaindo em lágrimas do esforço de uma vida que se vai numa intempérie...

E a “digestão” continua... Mais um bombardeio, sabe lá onde no mundo... A mulher grita. Perdeu o filho, o irmão, o marido; todos civis. Enfim, tudo é guerra, não?

Desliga a televisão. Mas o “toque de recolher” na vizinhança 'concorda'. Tiros e mais tiros. Pessoas tentando se abrigar em lojas e atrás de carros; terror. Da janela, tudo se vê. Deve ser algum conflito entre traficantes e policiais.

Mas é melhor ficar “longe”. Antes que uma bala perdida alcance em cheio o resquício de humanidade. Só estilhaços, reais ou não, de uma estranha sociedade. Melhor não ver, melhor não ver...

Então vem o sono. Os projetos a entregar no dia seguinte. Um pesadelo da filha sendo assaltada. E a insônia, a insônia; todo meio acordado para a vida... Mas ainda vivo!

13.9.05

Continuu

Uma espécie de fixação por amor. Como as pessoas não duravam, o amor, apenas ele, persistia. E o personagem era projetado em cada sombra de identificação. Arrastada ao longo de amores, cada vez mais inalcançáveis.

E não é que não amasse. Era cada vez intenso. Mais autofágico também. Suicidava de amores em amores. Cultivando o velho hábito de enaltecer as qualidades de cada um, sobretudo, amar os defeitos.

Sabia amar cada vírgula. Conhecia o silêncio como ninguém. Enxergava a pureza em cada farpa do dia a dia. Entendia a natureza do próximo. Só não podia suportar a dor do amor sucumbir ao cotidiano. Este então lhe parecia a morte de sentido.

Tinha sido sim, muitas vezes, injusto com o possível. Tantas que perdera a conta... Não conseguia respirar o plausível, como se tivesse de salvar a si mesmo em cada estrada sem fim...

E tudo era amor demais. Ou falta de amor. Sem saber, não percebia que um não funcionava sem o outro. Não havia mesmo motivos para agir assim, de uma maneira ou de outra. Magoar alguém é que era o fim. Amava “de menos”, amava “de mais”, e lá estava: a incompreensão que parece mover o mundo. Como se a paz fosse o apocalipse...

Sem querer, ia arrastando paixões perfeitamente lunáticas, enquanto o bondoso amor-perfeito, assim, exagerado mesmo, carregado de obrigações, ia se tornando pesado; ele, pesaroso...

Muitos olhares antigos, entretanto, ofuscavam o pensamento. Ficava a dor de não poder continuar. Sim, correspondia sim. Amava todos os amores. E continuava amando, mesmo quem odiava sua intermitência existencial.

Quando alguém 'divorciava' então, vinha a culpa. O vinho que deveria ser mais saboroso, aos poucos, era efêmero. De um só gole, ele tomava suas certezas e parecia desistir na embriaguez-ápice. E quem queria ser 'certo', junto, chorava este furacão de busca contínuo...

Então ele derramava. Lágrimas daquele instante que nunca pode continuar sendo. Aquele, aquele, aquele que está por vir, o momento antes do orgasmo. Para ele, o resto persistia igual; a ressaca de todos os sentidos...

E se desculpava. Às vezes antes, durante, depois. Sabia no que não ia dar. Avisava. Sempre dizia. Mas o fato era que acreditava em pelo menos um momento. E porque acreditava neste momento, o momento, seria capaz de virar o mundo atrás dele. Se viesse mais rápido, mais rápido era o devaneio. Se custasse, mais instigante.

A arrogância era tanta, que nunca deixara de acreditar sem ter vivido. Nunca, nunca, nunca... Nunca não existe... Na verdade, uma vez o céu havia sido pouco pra sonhar. Sonhou, sonhou, até sorriu, guardou quimeras de instantes quase verdadeiros. Quase. Mas voltou. Literalmente. Azul? Passou a ser só blue... Uma saudade que, por si só já é intensa, pior quando poderia ter sido aquele, aquele momento...

E isso foi tão forte que até parou para pensar na continuidade de um agora mais calmo. Aceitando que não se pode pular de sonho em sonho, sugando alegrias e recordações-combustível. Nunca vivera este outro lado; quem fica com o não-vivido, não correspondido, como se não tivesse “sido” o suficiente. Talvez estivesse errado? Quem ia saber agora?

Mas não adiantava. Tentava, tentava. A estabilidade feliz, meta para muitos outros mortais, parecia um “expropriar” de tantos “eus” por vir... Um dia ia se esgotar. Talvez sim. Talvez não.

E ele chegou a querer. Ironias do destino, quase implorou. Bebeu da própria ausência e assistiu ao seu reflexo, no espelho de um outro alguém. Mas a palavra ainda não era 'agora'... Só restaram os cacos...