28.7.05

Espera

Parada na porta do restaurante. Andando de um lado a outro. Detestava esperar. Não estava ali mais do que cinco minutos, mas a agonia aumentava.

Atravessa a rua. Cigarro. Cigarro. Se queria parar de fumar, era melhor comprar a varejo... A barraquinha era a solução.

Uma “moça” compra balinhas. Uma mendiga pede centavos para alguma coisa inaudível... Uma fileira informal de “moças” se estende ao longo da rua.

Nem bem comprou o cigarro avulso e o vendedor gritou: “Bora, vamo trabalhar aí... Circulando, circulando...”. Ótimo. Um ambulante cafetão. A diversidade da Lapa... “E eu aqui...” – pensou, já acendendo o cigarro.

Esperando again na porta do bar, mendiga pedindo trocados – “será que estou ficando louca? Isso já aconteceu...”; pensou em como tudo havia começado. Tinha saído de casa no dia anterior, por volta das sete horas, logo depois da visita “inesperada” de um “amigo”.

Em pouco tempo, estava cercada de amigos queridos, jogando papo para o ar, em Copacabana. Uma garrafa de tequila from Mexico. Herradura. Sal, limão. Papo, papo, papo... Uma garrafa de cachaça. 51 mesmo.

Ao longo das semanas de esbórnia, a variedade do bar estava ficando inversamente proporcional aos porres... Papo, papo, papo e.... lá foram à praia.

E como isso acontecia? Logo eram muitos... Dos 4 iniciais, o grupo já estava multiplicado até ilustres desconhecidos. Hotel. Mais garrafa de cachaça, mais outra... Inglês, português, embriaguez...

Gente se exercitando na praia, em todos os sentidos. Banho de mar. Conversas e pássaros cantando... Intermináveis segundos loucos. Mais gente, mais gente. Dá um dois, pega a nota, pega o fósforo, queima idéias, atordoa lembranças...

Piscou os olhos e o dia está lindo... O sol está nascendo. Uma maravilhosa praia. Da multidão para os quatro, para o quarto; só risos. Acende mais alguns cigarros e lá tinham ido dois maços numa só noite...

Abre os olhos. Quantos momentos passaram??? Em horas, ela não sabia... Trabalho, que trabalho??? Quem, quando...

Vamos agitar, agitar. To get up. Voltar às origens. À praia novamente. Será que ela se enganou; tinha mesmo ido no hotel??? Surrounding... Lá estava o inglês...

Tinham comido alguma coisa? Sabe lá... Bebe, bebe, bebe. “Não, não falo italiano”. Fuma mais. So funny. Muitos momentos e “vamos ver um filme?” – perguntou o amigo.

Piscou os olhos e já era noite. Nove horas. Dogville no desejo, na TV; real life outside... É hora de voltar para a casa. Todos até o ponto. Ela pensa: “que casa, para qual casa eu vou? Está, ok...”. Era melhor ir para o apartamento, tinha que pegar o carro de qualquer jeito...

Toca o celular dela. “E aí, qual a boa da night?”. “Não sei, na verdade, eu estava indo para casa”. “Você está onde?”. “Em Copacabana.”. “Está ‘afins’ de beber, tô saindo agora”. “Putis, eu ainda não consegui voltar pra casa...”. “Vamos então...”. Suspira e pergunta: “Onde?”. “Na Lapa, naquele bar de sempre”.

E lá estava ela esperando... Mais alguns copos de vida “confraternizada”...

20.7.05

Feliz Dia do Amigo!!!

[ Gripe, cansaço, aniversários, shows, trabalho... enfim... Desculpem o meu sumiço de novo... Este texto de hoje vai para homenagear os amigos, sem os quais não existimos. Aqueles, de todas as horas - as tristes e as boas, mesmo quando não encontramos os amigos há séculos... Quando precisamos, os verdadeiros amigos sempre estão por perto!!! ]


Recordatio: Duplo Soneto de Maricá



Natureza tão sábia
Tão sublime.
Pragmatista em nossas vidas.
Aquilo que, usual, brincamos de ver.

Trouxe o vinho nas divinas uvas.
Suco fermentado de maçã; sidra.
Como Natureza, não se deve encanar. Solte a mente.
Lá vem cana. De açúcar. Agüardente, gente!

Momentos que passam. Vão e vêm.
Moinhos de saudade, fez ventar,
faz cachaça, fez sabor, faz lembrar.

E da cevada? A cerveja esperada.
Do cacau, o chocolate, nada igual!
Trigal, o pão nosso de cada dia; trigo trivial...

Natureza tão sábia.
Tão sublime.
Chove quando é preciso nascer.
Providência divina para germinar o milagre da paz.

Trouxe o frescor. A maresia.
Água para todos, quem diria...
Sem arco-íris; Colorido de instantes.
Uivar da garoa; sua voz, Natureza.

Momentos que passam.Vão e vêm.
Não se remoer; só emoção.
O resto é “cafezinho”...

Memoriae. Palavras em metonímias e metáforas.
Quanto mais eu pense, só resta agradecer.
A vocês e à Natureza.

5.7.05

O fabuloso mundo das crianças...

Ele, seis anos, parado, no meio da sala. O padrasto desce as escadas.

- Filhinho, papi quer falar uma coisa. Senta aqui.
- Tá.
- Sempre que você acabar de brincar, você arruma o seu quarto, ok?
- Tá.


Almoço. Todos quietos. O pequeno se manifesta.

- Papi, Renato falou uma coisa no colégio que eu não sei se entendi...
- O que ele falou, filho?
- Ele falou “cu”... O que é isso?
- Hum... Bem.... É o que todos usamos para ir ao banheiro...
- Ah....eu pensei que fosse pescoço....mas pescoço a gente não usa para ir ao banheiro...
- De uma certa maneira, você está certo. “Cou” é pescoço, mas em francês... Você lembra das suas aulas?


A criança não responde e continua comendo, pensando. Todos vão ver tv e ele, quieto. Horas depois, o pequeno se manifesta:

- Papi, vamos brincar?
- Claro, filho.
- Você sou eu e eu sou você, tá?
- Ok. E aí?
- “Então, você já brincou, vai arrumar seu quarto”...


----//----


Noite seguinte, festa na casa da avó paterna. Preparativos. Bolsas. Festa e farnel. Logo está a família toda reunida. Pai, padrasto, filho, mãe, avós, primos, madrinhas e padrinhos, amigos... A vó começa a brincar com o netinho e pergunta:

- Meu fofinho, você gostaria de ter um irmãozinho?
O pequeno grita, eufórico:
- Sim, quero, quero, quero!!!
Silêncio. A curiosidade da avó persiste:
- Mas você acha que vai ganhar um irmãozinho da sua mãe ou do seu pai?
- Ora, vovó... Da mamãe, claro! Meu pai não tem namorada...

Desconcertada, a avó continua:
- E você, cadê a namoradinha?
Ele faz cara de pensativo e permanece calado.
- Vovó já sabe, você vai namorar a filha da Tia Valeria, quando ela crescer, né?
- Ih, Vó... Claro que não! Quando o filho da titia crescer, eu já vou ser adolescente...


Papo sim, papo não. Muita comida. Volta para casa. Padrasto, mãe e filho no carro. No céu, um verdadeiro “espetáculo” da Natureza.

- Olha, Amor, que lua linda. Ela está amarela!
- É, está linda mesmo.

O filho faz cara de desdém e afirma:
- Nos meus tempos, a lua era branca.
- Como assim, filho? Você tem seis anos. Você não sabe o que está falando... – diz a mãe sorrindo.
- Claro que sei. Quando eu era pequeno, a lua era branca. Agora?! Não sei não...




[E que as luas de vocês sejam brancas, amarelas e de todas as cores...]

2.7.05

Morrer

Ter a sua sombra uma espada prestes a escorregar,
cravando como um punhal.
O peso dos sonhos e medos.
A ânsia do tempo.
A surpresa da infinidade de alguns segundos.
O inesperado temido.
Simples certeza - daí tanto pavor.

24.6.05

Carta a um pai

Querido papai,


Eu sei, Papaizinho. O senhor fez tantos planos... E me mandou aqui para imensidão do Rio de Janeiro. Para uma das melhores faculdades. Mas, não se preocupe, estou aprendendo bastante...

Ontem eu conheci uma moça na praia de Copacabana. Ela estava contando do árduo trabalho dela. Como fica na labuta todos os dias. Trabalha até altas horas. E ganha muito bem... Realmente os salários aqui são melhores...

Fiquei também tentando descobrir sobre os doces que nos dão nas festas. São todos muito gentis... A boca vai se desfazendo, uma sensação dormente, mas não se preocupe, Papaizinho, estou aprendendo bastante...

Eu sei, eu não fumava. Mas aqui você encontra cigarros das mais variadas marcas e outros, meio artesanais; muito interessante. Mas aprendi que não devo passar a língua muito úmida...

E tenho conhecido muitas pessoas. Aprendido línguas diferentes... Estava ontem perguntando como se descobre um Homem numa boate GLST. Cheia de siglas e gírias esta cidade, meu Papaizinho... E como saber que um cara, numa festa, querendo te beijar, é bi ou não??? Tantas dúvidas nesta cidade... Mas estou aprendendo...

É muita informação. Conheci muitas bebidas diferentes. Provei absinto cantando Moulin Rouge... Papaizinho, você conhece este filme: Moulin Rouge? Se você conhece, devo confessar que não vi borboletas, ou fadinhas, mas creio que eu vá descobrir, aqui no Rio, se existem ou não...

Papaizinho, aqui as pessoas sabem tanto... Elas assistem a filmes bem liberados. Dá para ver a vida em ângulos bem diferentes... Ah, meu curso? Tem me ajudado bastante. Outro dia, ameaçaram nos prender numa boate, mas eu citei algumas leis e eles nos liberaram sem problemas... Aqui também ocorrem “injustiças”, mas agora eu estou aprendendo o que é “lei” e o que é fora da “lei”.

É muita informação, Papaizinho, que não sei por onde começar...cada dia uma coisa nova... Preciso que o senhor me dê uma luz, ou será que devo dar à luz??? Porque acho que estou grávida, Papaizinho. Você sempre quis um netinho, não?

O pai é/será meu ex-namorado; um traste carioca, ligeiramente gigolô. Ele me trocou por uma mulher mais experiente do Rio. E mais rica... Sustenta ele e tudo... Talvez ela ajude a sustentar seu netinho... Não, eu não sei ainda, mas, aqui, já sei, existem fáceis exames de farmácia...

Porém, não se preocupe. Crianças são uma verdadeira bênção; tenho inclusive um “amigo” de 16 anos... “saímos” bastante juntos e ele me ensinou muita coisa. E ele é meu primeiro amigo gay; apesar de começar a achar que ele é bi...

Em todo caso, vou passar a ter menos despesas. Estou dividindo apartamento com uma amiga e ela me disse que, se eu estiver grávida, vai me ajudar a cuidar da criança... As amizades aqui no Rio são bem mais íntimas, dá para aprender muito sobre relacionamentos humanos...

Estou indo de um extremo a outro aqui nesta cidade maravilhosa... Não creio que fosse viver isso tudo no Mato Grosso... Papaizinho, você tinha razão ao dizer que eu iria aprender muito mais aqui... Não creio que eu consiga voltar a morar aí, meu mundo se abriu todo... Mas, não se preocupe, estou bem...

Ah, minha amiga de Copacabana me ofereceu um emprego e tudo... Acho que logo vou poder me sustentar sozinha aqui... Mas, não se preocupe... Estou morrendo de saudades e logo enviarei notícias.

Sua criança,



Pamela

18.6.05

Viagem no tempo

Com a mochila nas costas, simbolicamente, as lembranças pareciam mais pesadas... As horas passaram arrastadas, como se um processo estivesse se estabelecendo. Ver a vida com os olhos de ontem...

Num instante, as mesmas ruas, os mesmos medos e um torrencial aguaceiro de planos pra enlouquecer. Aqueles que você não chegou a realizar, mas foram tão amados, tão idealizados...

O cachorro late, abana o rabo, contente, como se um mundo de outras vivências não tivesse atravessado suas simples existências. Como se meses e meses morressem no instante do reencontro. Ali, aqueles olhinhos azuis brilhando, pedindo carinho, de barriga para cima, na simplicidade que os humanos parecem nunca alcançar.

Andando e lá está o cão. Atrás do personagem. Como sombra de passado e de afeto. Um banho e ele a esperar, como quem, inocente, ignorou anos e anos, algo que, agora, nada mais eram que olhares se cruzando. Ali. Parado. À porta. Humilde.

Fuma um cigarro, olhinhos azuis como companhia. Rodeando; talvez buscando o tempo perdido. E o cachorro espirra, pede comida, olha a corrente. Ah, os passeios...

E por onde vai, lá está o melhor amigo do homem, como o passado, que insiste em chamar, em brilhar por meio de maravilhosos momentos. Cada canto, uma recordação, quase viva. Independente.

Mas é só o ontem. O personagem abaixa os olhos e sofre, de leve, sem responder as perguntas de continuidade. Sem querer pensar. E que seja. Uma feliz viagem no tempo de você mesmo...

12.6.05

Apenas mais uma de amor...

[ Desculpem o meu sumiço, mas, além de viajar, estou tendo problemas de acesso à rede... Este texto vai em homenagem a todos os apaixonados. Homens, mulheres, senhores e senhoras, crianças... Aqueles que, num dia simbólico como hoje, não podem estar ao lado de quem amam, seja porque não está mais vivo, seja porque o amado/amada se encontra em outro estado, trabalhando em outro país, ou porque foi preterido em nome de um outro amor. Pior ainda, porque não ama assim, descontrolamente, nenhum ser. Ode ao amor, meus caros, mas todos os dias do ano!!! Pela vida, pelo próximo, pela Natureza...]



Horizonte


Sabe aquela foto que eu não coloquei no trabalho? Este amor que não posso ostentar aos quatros cantos. Este sentimento que preciso explodir, como etiqueta deste sorriso pueril; sorriso-pensamento em você.

Todos os dias eu acordo você. No despertar, vem o sorriso, o nome é repetido. Às vezes em voz alta. Às vezes num sussurro, tímido, no desespero de ter e não ter. Todo o tempo.

O café da manhã que você adoraria. Sei que você iria gostar deste livro que estou lendo. E lá está você, ‘discutindo’ o livro comigo. Sei que iria amar esta música, aumento o volume.

O restaurante que você pediria massa. Muito parmesão. Cinema? O filme cujo ator você conhece. E o diretor, o nome do filme em português, inglês, quiçá em italiano. Exagero? Este sou eu...

Uma livraria, um sebo. Milhares de nós. Novos, usados, cheios de histórias, de autores, de vidas, memórias e sonhos. Tantos sonhos, jogados em prateleiras. Jogados em letras. Vidas sorrateiras...

É você numa paisagem linda. O lago, azul, brilhando. Como seus olhos. Um pôr-do-sol para ver enrolado, misturado aos seus braços. A foto que o seu olhar poderia ter visto. Saudade que nenhuma palavra mensura.

Farras gastronômicas. Foundue de queijo. E chocolate. O vinho que te deixaria mais sorridente, livre, falando alto... vejo o sorriso na minha direção num beijo que você roubaria, sem nenhum esforço...

Outro filme. Outras frases que você diria. Você. Você. No texto da vida, somos nós. Nossos nomes. Nosso desejo. Nossas projeções. E sou eu. Sonhando acordado.

4.6.05

Monstro de Olhos Verdes...

Dom Casmurro moderno


Ela estava para todo lado tentando descobrir irregularidades naquele hospital público. O jornal queria a matéria para o dia seguinte, o “furo” do final de semana. Uma verdadeira multidão agonizava, esperando atendimento. Onde ia, havia pessoas querendo fazer denúncias.

Estava entrevistando um paciente que havia esperado 4 horas para ser atendido, quando um médico se aproximou, bastante assustado, dizendo que precisava falar com ela. Entregou um papelzinho, pequenino, com o nome dele, disse que queria fazer umas denúncias em off e saiu apressado.

No meio da entrevista, sem saber o que fazer, ela colocou o papelzinho no soutien e continuou sua “corrida” por descobertas no hospital. Depois foi logo para redação; sempre correndo, escreveu a matéria e teve de sair apressada para encontrar o namorado, que estaria indo visitar a família em outra região do Brasil.

A semana tinha sido uma confusão, os dois nem tinham se visto. Ele a encontrou no motel e, quando ela abriu a porta, ele já veio, cheio de saudades. O clima começou a esquentar. A saudade apertava. Ele começou a tirar a camisa dela e voou o papelzinho.

O bilhete caiu na cama, assim, virado para cima. Rodrigo. Número tal. O namorado ficou louco. Começou a se alterar, ficar vermelho. Ela tentava explicar, inutilmente, que era um médico querendo fazer uma declaração sobre irregularidades num hospital, no qual havia feito uma matéria. Tinha estado “enrolada”, sem bolsa, com gravador, papel, caneta, sem bolso... Guardou ali e esqueceu...

Ele foi ficando mais nervoso. Ela perguntava se ele estava desconfiando dela. Ele dizia que não, mas que ela não tinha malícia. É claro que o médico estava dando em cima dela. Aproveitando-se da situação...

Ele ficava cada vez mais nervoso. Ela resolveu sair e ir para o banheiro, para ver se ele se acalmava. Ele começou a esmurrar a porta e gritar “saia daí agora... quero ouvir você falar com este aproveitador”.

Sem saber o que fazer, também nervosa, ela saiu. Tentou argumentar que era muito tarde, duas da matina. Ele insistiu. Sem saber o que fazer, ela pegou o telefone e ligou para o tal Doutor Rodrigo.

“Oi, que bom que você ligou”. O namorado ficou quase pendurado no ouvido dela para ouvir o que o ‘aproveitador’ estava falando... A jornalista, sem saber muito o que dizer, enrolou o médico, para ele continuar falando.

“Desculpe ter entregue tão rápido o papel para você no hospital, mas não queria que ninguém visse. Fico feliz que você tenha ligado, existem várias coisas absurdas acontecendo lá e preciso contar”...

Como um balão perdendo o gás, o namorado, então, caiu, sentado na cama. Cara de criança que foi flagrada roubando um doce..

27.5.05

Inocência

Inocência na espera por um momento muito desejado.
Sentada no sofá. Perninhas cruzadas. Cachorro nos braços.
Uma saudade que morde e uma novidade que late.
Solta o cachorro, Miúxo, e ambos se aproximam, correndo.
O abraço apertado. A fala disparada e a voz alta.
Histórias sobre o cachorro de dois meses por uma criança de cinco.
Explosão de fatos & fatos & fatos.
E o cachorro late, morde, brinca e também implora atenção.
Carrinhos, bonecos, bandeira da seleção, todos os novos adereços.
O brinquedo de letras e a surpresa da leitura...
A inocência que lê. Soletra. Que repete o alfabeto.
Reconhece os números e o mundo da escrita.
A inocência que come, enganada, numa disputa:
quem terminará primeiro? Madrinha ou afilhado?
O encantamento da televisão e o conhecimento infantil.
Personagens, histórias, tramas...
O passeio e a entrada no ônibus:
“Dinda, por que você não pode entrar comigo pela frente?”.
Inocência que ouve, mantém-se atenta ao mundo.
E surpreende fazendo a linguagem dos sinais.
Compra balas de gude. Chicletes. E quer bala, kinder ovo...
Alguém que pode oferecer os caprichos que não pode ter sempre.
E esse alguém o faz com muito prazer...
Espanto novamente: a vivacidade da criança reconhecendo os caminhos.
Jogos. Brincadeiras. Corridas. Diálogos.
Diálogos... A criança entende e sabe se fazer entender.
Brinca com os animais e até os conta...
Lê as placas, fala quais são os ônibus e para onde...
Pede, candidamente, para abrir o difícil botão da calça...
Estava apertado para ir ao banheiro?!
Uma distração e já foi encomendar o sanduíche pretendido.
Vai pagar sozinho e se espanta porque não sobrou nada da nota...
Volta para casa e, banho, claro!
Afilhado, contente. Madrinha, abobada.
Despedida. Por quê? Sempre...
Parado na porta, cabelos lisos molhados, escorrendo sobre o rosto:
“tchau, Dinda”.
Tchau, Pipe. Fique aí, criança.
Mantenha o sorriso no rosto e prenda a felicidade na alma.
Brinque. Aprenda. Viva.
Mas jamais, jamais se deixe contaminar pela crueldade do mundo.
Fique assim, “Inocência”.

20.5.05

Personagem perdido

ESTOU PEDINDO SOCORRO COM O OLHAR

com cada parte de mim.

PEÇO QUE ME VEJAM

como realmente sou.

E EU NÃO SOU O QUE SOU,

venho sendo,

OU VENHO TENTANDO SER...

PEÇO QUE ME OUÇAM

nem que seja pra falar de (en) terra (r).

PEÇO QUE ME VEJAM

nem que seja a visão de uma neblina.

PEÇO QUE AS COISAS NÃO SEJAM

e acabou.

PEÇO QUE NADA SE PEÇA

peço a pureza que o padrão nos rouba.

PEÇO A CERTEZA DO AMANHÃ

peço a loucura dos que dizem a verdade.

PEÇO A ESPERANÇA DE QUEM REALMENTE VIVE

peço o brilho dos que amam...amam sem condições.

TALVEZ EU ESTEJA PEDINDO DEMAIS.

Na verdade, estou pedindo o que sou...

E PRECISO SER...

preciso ser o não ser...

PRECISO DE MIM!!!

13.5.05

A menina do ônibus

Para ela, ele é Deus.
Ela o vê como homem, modelo de beleza
Exemplo de astúcia.
As palavras são como ensinamentos.
Que vêm leves, risonhos, felizes.
Ela o olha como algo a ser, espelhar-se.
Fala. Fala. Como criança.
Bem mais do que de fato é.
A inocência de ser espontâneo,
até bobo para chamar atenção.
Brinca. Ri. Como quem vive um momento único.
Como, na verdade, todos são.
Fala. Fala. Ama como criança.
De olhos fechados e peito aberto.
Como, na verdade, todos deveriam ser.
Ela fala. Fala. Ele observa e a envolve com carinho,
apoiando-lhe a cabeça nos braços,
beijando a face e lhe acariciando o braço.
Em contrapartida, admira.
Talvez resgatando nela um pouco do amor
incondicional perdido no “crescer”.

9.5.05

Tudo pela Literatura...

Confesso não ter muita paciência com ‘correntes’, mas tudo pela Literatura... Seguindo uma corrente, agora proposta pela Leila, aqui vou eu...

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Caramba, nunca pensei nisso...em ser um livro... Mas, se pensarmos bem, nós somos todos livros inéditos, cheios de coisas para ser... Que responsabilidade?! Será que não daria para ser uma coletânea? Vou pensar mais a respeito...


Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Somos todos personagens, acho que vem a calhar neste blog... Não creio, mas eu me lembro vagamente de, bem menina, ficar louca pelo personagem do livro ‘Se houver amanhã', Sidney Sheldon. Não me crucifiquem, por favor...

Qual foi o último livro que compraste?

Ih, eu comprei um monte em Buenos Aires. Ando num ardor pelo idioma espanhol que só minhas compulsões poderão explicar... De todos, meus ‘queridinhos’ são dois, o que eu estou lendo e o “Memoria de mis putas tristes”, Gabriel García Marquez.


Qual o último livro que leste?

O último livro que li foi de trabalho, mas, antes dele, lembro de ter relido “Laços de família” ( Clarice Lispector) e “Amor, curiosidad, prozac y dudas” ( Lucía Etxebarría).

Que livros estás a ler?

Estou bem enrolada, como sempre, mas estou tentando ler “Cartas desde el infierno”, Ramón Sampedro. Para quem não sabe, o livro do filme “Mar Adentro”.

Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

Olha, escolher é realmente um problema... Mas certamente levaria livros do Manuel Bandeira, García Marquez, Saramago, Machado de Assis, Cecília Meireles, Edgar Allan Poe...

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

A maioria dos meus amigos não tem blog, mas vou passar para alguns, incluindo os amigos virtuais que venho fazendo.

3.5.05

Escova progressiva?!

Caminhando na forte chuva. Quase 23:00hs.
- Ei, ei... Posso pegar uma carona?
- Oi?
- No guarda-chuva...
- Ah, sim, claro...
- É que eu acabei de fazer escova progressiva e não pode molhar, sabe?
- Não, não sei...
- Então... Eu não trouxe guarda-chuva. Não queria “morrer” em cem reais...
Ele, calado. Ela, continua.
- E eu queria mudar o visual porque meu cabelo estava HORRÍVEL. A gente economiza para poder gastar com estas coisas... Não posso estragar o cabelo então...
- Sabe que se eu contar que dei “carona” a alguém, no guarda-chuva, para manter a escova progressiva, capaz de ninguém acreditar?!
- Por quê?
- Não sou exatamente contra, mas também não recomendo este tipo de coisa. Acho que não tem necessidade...
- É, mesmo... Deviam avisar a gente como é... Agora não posso molhar, tem de valer a pena! Queimam a cabeça com formol, fica um cheiro terrível... Sente só... – diz, esticando os cabelos.
Enquanto fala, a desconhecida, já agarrada ao braço do personagem, segurando o guarda-chuva junto à mão dele, vai aproximando o corpo.
Mais da metade do corpo molhado, encabulado, ele joga fora o cigarro apagado e vai mais para chuva. E ela continua perguntando onde ele vai e falando...
-Ih, eu moro tão longe... Vou demorar a chegar em casa. Pior que, ao chegar lá, ainda vou ter de andar. Será que ainda vai estar chovendo? Ai, não sei o que seria de mim sem você...
Ele, calado, encabulado e incrédulo.
Ela...
- Escute, qual o seu ponto de ônibus?
- Aquele ali, o terceiro.
Ele avista o próprio ônibus, parado no ponto, suspira, mas leva, mesmo assim, a garota ao ponto dela.
- Pronto, é aqui, não?
- Sim.
- Ok, então... tchau e boa sorte.
- Espera...
- O que foi?
- Toma...
Ele olha o cartão com o número de telefone anotado e retorna o rosto, ainda mais envergonhado, para ela, que dá uma “piscadinha”. Sem falar nada, corre para pegar o ônibus e fica, rindo, sozinho, pensando: “escova progressiva...tsc...tsc...tsc...”.

29.4.05

Noite III

Quase vai tudo numa onda
Fica a sensação pendurada no acaso...

Um sorriso no inesperado...
Venham, surpresas...

Lá longe. Pareço me ver.
O flagra do proibido.

Mais longe. A promessa.
Eterna . Como água secando... Lentamente.

A lua? Nem tímida.
Como companhia? Além de mim?
Uma estrela única... Insistente...

De repente, perto do mar
parece que as estrelas se despem
em tristezas.

E brilham.
Enquanto a vida escorre sob meus pés.

Vontade de mergulhar...
De cabeça. A água gelada explode...

Tão ondas. Tão sonhos...
Até olho para trás...

26.4.05

Noite II

O cigarro queima.
Roupa. Ilusões.

Incêndio de idéias.
Só vejo pegadas.
Não há fim...

A cinza, intacta.
Mas vai desintegrar...
Universo normal!

Eu e Natureza.
Escultura imóvel.

A lágrima escorre dúvidas.
Repousa, inerte, na luz adiante...

24.4.05

Noite de um personagem I

Uma noite fria
bem como minha alma.
Distante dos sonhos...

O mar? Revolto.
Aguaceiros que não param.

Lembranças seduzem.
Não consigo escrever!

Sombria a montanha
na penumbra do momento ideal.
Passado!

A correnteza vai.
E tem de trazer o novo.
A descoberta.

Não vejo horizonte.
Como em mim...

19.4.05

Sempre Clarice

[ Na falta de tempo, faço aqui minha homenagem para a grande Clarice Lispector!!!]


"Tenho que falar porque falar salva. Mas não tenho nenhuma palavra a dizer. O que é que na loucura da franqueza uma pessoa diria a si mesma? Mas seria a salvação". Clarice Lispector

14.4.05

Marcas

A névoa subindo. Sumiço no ar. A ilusão que cultivamos. Como cinzas se espalhando na água. Descendo a um fundo qualquer...

‘Chuvas’ na parede. Sinais do tempo. Listras e listras. Formas de cinza. Como lágrimas marcadas.

Um céu que se recria nas nuvens intermitentes. Desenhos criativos que seguem sonhos e imaginação. A luz que se apaga. E que se acende. Sob o vidro estampado de casual intempérie.

Até a brasa se apagando. Queimando a não- consciência de um instante.

Uma forma geométrica qualquer. Distâncias entre pontos da imaginação. Cultuando pedaços de utopia. No que se quer criar. Pensar.

Ramos que crescem em determinada direção. Natureza vívida e imprevisível.
A teia de aranha, magnífica, contra a luz. Um mosquito bailando em existência. Defrontando inquestionável cadeia alimentar. Aranha “patinando” como um ato teatral para alimentação e cruel sobrevivência.

Luzes ao longe que desenham castelos piscantes. Ondas vibrantes; som. Um rio “escorrendo”; um ‘mar’. Um raio. Um trafegar de carro. Trajetos de energia sonora que não se vê, não se sente e não se costuma vislumbrar. Marcas dos sentidos que nos cercam, mas não se certificam na consciência.

Sombras. Em galhos flutuando no ar. Quase como um balé natural. O espetáculo se faz. Na ignorância do entorno corporal. Na matéria, orgânica ou não. No ser, vivo ou sobrevivente. Brisas que atravessam sorrateiramente. Um sussurro incólume.

Como ondas na água. Indo e vindo no mais maravilhoso som inaudível do sonho visual. E ‘aqui fora’, neste personagem? Tantas marcas. Não importa o marco que pontuem...

Daniele Sorris

"E são tantas marcas que já fazem parte
Do que eu sou agora mas ainda sei me virar
Eu tô na Lanterna dos Afogados
Eu tô te esperando
Ve se não vai demorar..."


Lanterna dos Afogados - Paralamas do Sucesso

6.4.05

Maior Abandonado

Liberdade. Liberdade. Essa o personagem não tem. Quer se prender a alguém, mas não pode. Não tem a liberdade de escolha. Está ali, mas não é visto. Irremediavelmente preso aos encantos de alguém. Desejando o acalanto dos beijos, o 'mantra' da voz e o quadro do sorriso... Tudo na memória como marca de felicidade única. Momentânea. Fugaz.

Liberdade, liberdade. Essa o personagem não tem. De dormir abraçado. De acordar O ALGUÉM no meio da noite, explorando um corpo. Infinito mais toques e beijos.

Que plenitude pode alcançar longe do "amor-ideal-real"? Aquele, com flores e problemas. Seria infantilidade (Who knows?)?

Liberdade? Onde? Se o amor é proibido, se o sentimento é tolhido até nos sonhos. Para quê? O poder da escolha é a maior liberdade; esse, o personagem não possui.

Um personagem que concedeu liberdades, outrora tão “conquistadas”. Um personagem livre de “pré-conceitos”; ao lado de alguém, livre, ousado, franco. E cá está este personagem, preso a um silêncio, da não escolha, do não compromisso. Nem respiraram desejo. Nem desejaram tentar.

Liberdade? Essa, o personagem não tem. A liberdade de viver junto. Qualquer outra pode ser compartilhada; a liberdade de sobreviver separado, a liberdade de promover a interseção do infinito. Mas, aquela? Aquela se dissipa, culpada, ao menor sinal de pensamento.

31.3.05

Personagem onírico

Um dia me falaram que as nuvens não eram de algodão, que o sabor do sonho não era doce, era inexistente; impossível. Que o céu era inalcançável; o limite. Insisti em acreditar nos mistérios da vida, mesmo sem entendê-los. E assim prossigo, perdida pelo mundo, mas descobrindo, aprendendo que, para mudar, é preciso quebrar paradigmas. Imaginar o meio-tom, 'ouvir o silêncio' e se questionar. Todos os dias.