31.10.05

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

"Chega um tempo em que não se diz mais: meu
Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

Carlos Drummond de Andrade

21.10.05

Darren Aronofsky's film

"If you want to find the number 216, you will be able to find it everywhere. When your mind becomes obsessed with anything you will filter everything else out and find that thing everywhere... 320, 450, 22, whatever!!! You've chosen 216 and you will find it everywhere in nature!"

Pi - Darren Aronofsky's film

19.10.05

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

13.10.05

O retorno

O cenário de uma rodoviária após um feriado é capaz de deixar qualquer um ensandecido. Pessoas que rodam de um lado a outro, desnorteadas, com apetrechos e malas entupidas de coisas muito além do que costumam precisar. Apressadas, tentando esgueirar-se o mais rápido possível entre a multidão de viajantes com parentes, amigos; todos com os rostos chorosos que costumam marcar as despedidas.

Como quase todas as pessoas que lotam a Rodoviária Tietê, na cidade de São Paulo, ela vagava entre os guichês à procura de uma passagem de volta para casa que, nesses momentos, sempre ganhava um aspecto ainda mais saudosista.

Boa tarde, eu queria uma passagem pro Rio?”, “Passagem pro Rio? Estão esgotadas”. A cena se repetiu algumas vezes até que ela, insistente, quase desesperada, ao se lembrar dos compromissos marcados para o seu retorno, tentou uma das últimas companhias. “Passagem pro Rio? Olha, a companhia colocou outro ônibus porque a procura está muito grande. Horário de 23:30...”. “23:30?! Mas são oito horas da noite?!”. O atendente do guichê olhou, impassível, para a incrédula compradora e acrescentou: “Olha, a senhora vai comprar ou não? A fila está grande, cheia de gente querendo comprar pra amanhã. E, quer saber, é a última desse ônibus...”. Vendo-se sem opções, ela comprou.

E agora? Seriam três horas e meia de espera. A primeira reação foi de perplexidade. Ela sentou-se num banco perto dos orelhões tentando “digerir” a idéia e planejar o que fazer. Um amiga tinha pedido para ela ligar avisando o horário da passagem, mas ela resolveu não deixá-la nervosa. Optou por um passeio pelo Shopping D, ao lado da rodoviária.

Mas como quase sempre ocorre durante uma longa espera, o tempo não passou e uma hora depois ela retornou para a rodoviária. A confusão de pessoas indo e vindo continuava, parecendo até maior. Gente saindo do metrô, gente saindo dos ônibus, chegando do feriado, gente pegando táxi, gente na fila do banheiro, gente, gente...

Cansada de andar, cansada de carregar o peso de sua mala, ela ligou enfim para a amiga, sentou na mala e ficou mais uma hora ao telefone, sem culpas pelo gasto, afinal, não era um interurbano...

Mais da metade do martírio de espera já havia passado e o cansaço já dominava o corpo. Resolveu comprar logo um novo ticket do metrô para o próximo retorno. A fila de compra, sempre enorme, consumiu mais uma meia hora... “Bem dizem que tempo é dinheiro...” – brincou.

Ela ainda entrou numa loja que sempre chamara a sua atenção, mas que nunca tivera “tempo” de olhar: Dinho Presentes. Comprou alguns souvenirs e seguiu para os quiosques da Praça de Alimentação. Após se conformar com o fato de que nenhum deles tinha coca light, comprou um suco, alguns biscoitos e sentou.

Os minutos finais ( seriam?) seguiam enquanto observava os apressados. 23:20. Quase como quem ia receber um prêmio, ela desceu até a plataforma número quatro.

Casais se despedindo, gente chorando, crianças sonolentas, lanchinho nas mãos, detector de metais na mala, entrega da passagem preenchida.... enfim, poltrona 22 do ônibus executivo de dois andares, horário especial; ao lado da escada. Adeus São Paulo. “E quem vem de outro sonho feliz de cidade, aprende depressa a chamar-te de realidade...”.

Oito horas depois, já acordada, ela avistou outra rodoviária na “cidade maravilhosa”: Novo Rio. Apesar do ônibus ser direto, devido aos congestionamentos, houve um atraso. Chegada enfim? Não. Engarrafamento de ônibus já antes da Rua Rodrigues Alves... Era a volta do feriado em outra grande cidade... Descanso? Imagina... Ela foi trabalhar com mala e tudo depois do feriado. Saltou do ônibus e viu gente, gente, gente... todos acelerados...

3.10.05

Cheiro de Morte

No ar, só sangue. Aquele cheiro de restos. Um breve piscar de olhos trazia aos ouvidos o gemido.

Uma dor profunda, quase um pedido de socorro. Um medo e um desnorteio. A tentativa de fuga. A sensação do embrulho no estômago e, de repente, aquele abandono. Como quem chora e desiste. Pronto, ali estava. Podia fazer o que quisesse com ele.

Dele, só a carne, só fisiologia, porque o espírito tinha voado numa lamúria sem dono. Depois, era só a matéria; vil, suja. Olhos esbugalhados, fixos, fitando aqueles que prejulgava como algozes; carapuça da raça-humana. E ali ficou, deitado. Nem água, nem comida, nem descanso, nem sonhos, nem vida.

Os olhos perdidos iam perseguindo, sem dó, nem perdão. E, por todo lado, era só sangue, era só aquele, aquele gemido. Eufemismo de morte, no rastro de liberdade...

Tigre, Tigre, Tigre; que assim seja!

27.9.05

Diário infantil de um personagem

Ai, Peposo. ‘Me leva’ de volta. Aqueles abraços sem fim. Tardes sem propósito, inconscientemente seguindo na direção do acaso. Sem questionamentos. Sem decepções quanto ao óbvio da humanidade.

Traz de volta aquela mente sem dúvidas. Em nenhuma busca desenfreada. Só o momento. Só o rir. Só o agora. Que infelizmente já é ontem...

Peposo, arraste-me contigo para os delírios pueris, os sonhos cheios de magia e ilusão... Leve-me hoje, arrastada, como eu, que te levava, abraçado, amassado, junto a mim como se fosse parte...

Máquina do tempo para a foto: o sorriso, bicho de pelúcia nos braços, um instante de felicidade despropositada. Aí se refugia o segredo da alegria...

Vamos assistir à televisão fazendo piquenique, na sala, com farinha Nestlé e Nescau... Dentro da casinha da Mônica... De pano... Vendo família Flinstones, He-man, Caverna do Dragão... As crianças perdidas...

Ah, as crianças perdidas... Acho que Caverna do Dragão é uma grande metáfora para o crescer. Quando a gente passa a ser “como nossos pais” e nos perdemos do simples, do óbvio, verdadeiro... Quando temos de abdicar da magia, dos poderes, do "unicórnio de nós mesmos"... A lenda da pureza, da lealdade...

Que farei hoje eu? Não posso abraçar e chorar com o Peposo... Ele não fala mais comigo, meu Teddy das cavernas e Tupiniquim... Não existe um Mestre dos Magos do mundo real...

Existem milhares de Vingadores na busca eterna pelos “poderes” das “crianças perdidas”... Cheios de tramóias, almejando “invencibilidade”...

Precisamos sair da caverna de nós mesmos! Deixar invadir a luz para ressurreição de sentimentos como lealdade, fraternidade; os eternos poderes do amor...

Vem, Peposo. Calado. Sujo. Desbotado. Olhos foscos e lábios sem cor. Vem. Você fala comigo sim... É só eu me reeducar para ouvir. Você e ao mundo. Vem...

21.9.05

Estilhaços de humanidade

A criança chora no sinal todos os dias. Olhos remelentos. Vestindo fome e desespero. O irmão mais velho, que nem é tão mais velho assim, vende doces.

Sabe aquela mendiga pedindo esmola todos os dias? Rodeada de cachorros, vestindo trapos, estendendo a própria mão... Logo ali na esquina...

A trocadora contando e recontando o mesmo troco, temendo o real que vai faltar na merenda dos filhos, se descontado. Aquela mãe que agoniza o filho preso, pouca idade, seduzido pelas oportunidades fugazes do tráfico.

Um despertador para realidade. Aquela da qual tanto se fala e pouco se vê. Indo para o trabalho, agenda lotada, o cotidiano esquece a agonia daqueles que “sobrevivem” ou vivem à parte da sociedade.

Mas o sinal abre. O telefone celular toca. E é o fim da “humanidade”. Ou o começo... em um longo dia de afazeres “produtivos”. A justificativa do salário no final do mês.

Tudo bem. Lar mais uma vez. Deveres dos filhos feitos. Comida durante o jantar. Televisão no jornal da noite. E mais um desabamento... Uma família que perdeu tudo. Uma? Uma apareceu na televisão, esvaindo em lágrimas do esforço de uma vida que se vai numa intempérie...

E a “digestão” continua... Mais um bombardeio, sabe lá onde no mundo... A mulher grita. Perdeu o filho, o irmão, o marido; todos civis. Enfim, tudo é guerra, não?

Desliga a televisão. Mas o “toque de recolher” na vizinhança 'concorda'. Tiros e mais tiros. Pessoas tentando se abrigar em lojas e atrás de carros; terror. Da janela, tudo se vê. Deve ser algum conflito entre traficantes e policiais.

Mas é melhor ficar “longe”. Antes que uma bala perdida alcance em cheio o resquício de humanidade. Só estilhaços, reais ou não, de uma estranha sociedade. Melhor não ver, melhor não ver...

Então vem o sono. Os projetos a entregar no dia seguinte. Um pesadelo da filha sendo assaltada. E a insônia, a insônia; todo meio acordado para a vida... Mas ainda vivo!

13.9.05

Continuu

Uma espécie de fixação por amor. Como as pessoas não duravam, o amor, apenas ele, persistia. E o personagem era projetado em cada sombra de identificação. Arrastada ao longo de amores, cada vez mais inalcançáveis.

E não é que não amasse. Era cada vez intenso. Mais autofágico também. Suicidava de amores em amores. Cultivando o velho hábito de enaltecer as qualidades de cada um, sobretudo, amar os defeitos.

Sabia amar cada vírgula. Conhecia o silêncio como ninguém. Enxergava a pureza em cada farpa do dia a dia. Entendia a natureza do próximo. Só não podia suportar a dor do amor sucumbir ao cotidiano. Este então lhe parecia a morte de sentido.

Tinha sido sim, muitas vezes, injusto com o possível. Tantas que perdera a conta... Não conseguia respirar o plausível, como se tivesse de salvar a si mesmo em cada estrada sem fim...

E tudo era amor demais. Ou falta de amor. Sem saber, não percebia que um não funcionava sem o outro. Não havia mesmo motivos para agir assim, de uma maneira ou de outra. Magoar alguém é que era o fim. Amava “de menos”, amava “de mais”, e lá estava: a incompreensão que parece mover o mundo. Como se a paz fosse o apocalipse...

Sem querer, ia arrastando paixões perfeitamente lunáticas, enquanto o bondoso amor-perfeito, assim, exagerado mesmo, carregado de obrigações, ia se tornando pesado; ele, pesaroso...

Muitos olhares antigos, entretanto, ofuscavam o pensamento. Ficava a dor de não poder continuar. Sim, correspondia sim. Amava todos os amores. E continuava amando, mesmo quem odiava sua intermitência existencial.

Quando alguém 'divorciava' então, vinha a culpa. O vinho que deveria ser mais saboroso, aos poucos, era efêmero. De um só gole, ele tomava suas certezas e parecia desistir na embriaguez-ápice. E quem queria ser 'certo', junto, chorava este furacão de busca contínuo...

Então ele derramava. Lágrimas daquele instante que nunca pode continuar sendo. Aquele, aquele, aquele que está por vir, o momento antes do orgasmo. Para ele, o resto persistia igual; a ressaca de todos os sentidos...

E se desculpava. Às vezes antes, durante, depois. Sabia no que não ia dar. Avisava. Sempre dizia. Mas o fato era que acreditava em pelo menos um momento. E porque acreditava neste momento, o momento, seria capaz de virar o mundo atrás dele. Se viesse mais rápido, mais rápido era o devaneio. Se custasse, mais instigante.

A arrogância era tanta, que nunca deixara de acreditar sem ter vivido. Nunca, nunca, nunca... Nunca não existe... Na verdade, uma vez o céu havia sido pouco pra sonhar. Sonhou, sonhou, até sorriu, guardou quimeras de instantes quase verdadeiros. Quase. Mas voltou. Literalmente. Azul? Passou a ser só blue... Uma saudade que, por si só já é intensa, pior quando poderia ter sido aquele, aquele momento...

E isso foi tão forte que até parou para pensar na continuidade de um agora mais calmo. Aceitando que não se pode pular de sonho em sonho, sugando alegrias e recordações-combustível. Nunca vivera este outro lado; quem fica com o não-vivido, não correspondido, como se não tivesse “sido” o suficiente. Talvez estivesse errado? Quem ia saber agora?

Mas não adiantava. Tentava, tentava. A estabilidade feliz, meta para muitos outros mortais, parecia um “expropriar” de tantos “eus” por vir... Um dia ia se esgotar. Talvez sim. Talvez não.

E ele chegou a querer. Ironias do destino, quase implorou. Bebeu da própria ausência e assistiu ao seu reflexo, no espelho de um outro alguém. Mas a palavra ainda não era 'agora'... Só restaram os cacos...

9.9.05

Maré

Será que um dia vou me lembrar?
Dos rostos que não fazem sentido.
Das vozes que não saem, perdidas.
Dos textos que não soube ler.

Do tempo que não seguiu.
Das palavras que passaram direto.
Do canto de lucidez.
E da verdade soprada aos prantos...

Será que um dia vou me esquecer?
Do destino que se foi.
Do corpo que se transformou.
E até do pó. Sem explicações...

Do gesto que não houve.
E da viagem que fez retornar.
Do doce amargo de certas vidas.
E do sonho esquecido ao nascer na praia.

Enxuga este piano de dentes.
Cada um, memória errante . Vacilante?
Não deixa a lágrima transbordar da mente.
Ópio enlouquecedor de melodias.

Raspa, recorta. Atira.
Fecha a porta. Resiste.
Até o resquício do fim. Para cima. Para baixo.
Mexendo para todo lado...

Nem sempre é tempo.
Ou paciência.
Nem único...

1.9.05

Inércia

Ao entrar no carro, mosquitos para todo lado. Um calor infernal. O prenúncio do verão. Malas no bagageiro. CDs esquecidos. Melhor seguir o rumo.

Algumas ruas, muitos carros. No cruzamento, esquerda ou em frente? Melhor esquerda. Todos os caminhos engarrafados, de qualquer maneira...

No final da rua, um sinal rápido. E a fila não anda... Bad choice. Bad choice.

Paulo Ricardo depressivo no rádio. Finalmente a vez; chegando ao sinal e virando para a direita. Entrei enviesada, o trânsito estava obstruído, não dava para ir mais com o carro.

Na confusão de automóveis, oriundos de todos os lados, meu olhar cruzou o dela. Ela estava num gol branco, que entrou ‘por fora’ do meu carro. Não sei quantos anos devia ter. O rosto era bonito e envelhecido. Magro. Dolorido. Parei, desconcertada.

Era um olhar pesado, triste. Numa fração de tudo ou nada, invadiu minha alma. Nunca havia visto a mulher na vida, mas tive o ímpeto de sorrir, dar um bombom. Porém, não tinha doces na bolsa e talvez ela não pudesse comer isso. No mesmo fugaz, porém interminável instante, corri os olhos pelo carro. Pensei em dar o meu boneco cachorro, que tanto amo, de olhos azuis, sempre balançando a cabeça, como quem canta uma animada canção...

Nestes longos segundos, o carro dela cruzou pela esquerda e sumiu no engarrafamento, na não fileira de carros paralelos. Ainda passei por alguns carros parecidos, 'mergulhei' a cabeça, para ver se encontrava, no banco do carona, aquela cabeça amarelada, raspada, provavelmente de quimioterapia. Nada vi...

E aquela angústia, num olhar tão penetrante, embora rápido, perseguiu-me por mais 40 minutos de engarrafamento.

Ela passou, deixou-me perplexa e levou sua dor. Nada pude fazer. É a impotência, a todo momento...

25.8.05

Difícil

Difícil é respirar, falar, manter-se impassível quando o que você precisa é se desesperar. Difícil é quando todas as futilidades do mundo giram em torno de papos para esconder tudo que te aflige.

Difícil é quando você não quer o que quer. Quando você não quer o que consegue e não consegue o que quer ...

Difícil é quando você não conhece nenhuma verdade que te sustente, nenhuma luz que te guie... Nenhum sentimento que te faça forte, seguro.

Difícil é escolher, difícil é acreditar...difícil é tomar as decisões mais acertadas... Difícil é decidir sobre o que decidir ou descobrir que o decidir não há no que é difícil...

Difícil é cada desespero controlado. Difícil é cada resposta sem pergunta e cada pergunta sem ilusão.

Difícil. Difícil. Difícil.

O que é isso tudo, meu 'DEUS'?

21.8.05

Becos...

Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.


Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

----------------------------------------------------

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Manuel Bandeira

14.8.05

POSITIVO?

Aguardava o exame junto à multidão que ia aumentando em progressão geométrica... “Saúde pública...devia ser não saúde de um grande público...” -ironizava ele.

Acendia um cigarro atrás do outro enquanto pensava na própria vida. Cheio de pena de si mesmo, já ia decretanto o fim e pensando no que gostaria de lembrar do passado de viver...

Analisava cada rosto, divertindo-se com o pensamento de que o anominato reservava faces e tipos completamente diferentes. Mas todos na mesma tragédia. A tragédia do medo, da apreensão. A incerteza do futuro ligada à incerteza da própria saúde...

Cada cigarro era um resquício de esperança que se acendia e se apagava com a sequência dos instantes e das lembranças...

Quais seriam as histórias escondidas no âmago de cada pessoa ali? Quais deles poderiam ter mais sofrimento para esquecer ou mesmo alegrias para contar?

Na vida, o que os uniu na categoria de vítimas da sociedade humana e da própria sorte... Seria um jogo de sorte & azar? Fatalidade?

Vidas talvez sem nenhum outro vínculo que um exame. Vidas que dali poderiam ter em comum um ponto de partida para um novo começo ou para o fim...Fim de quê? Já estava se condenando novamente...

E se desse HIV positivo? Então? “E daí?” - murmurava ele.

Precisava parar de se “matar”. Na verdade, todos sabem que vão morrer. AIDS é só mais um limite criado por nós... “Positivo?” - praguejava ele.

Positiva devia ser sua esperança, mas se o resultado desse reagente, ele também reagiria. Lutaria contra os excessos e provavelmente viesse a ter uma vida até mais saudável...

Reagiria contra o recorrente desejo de ter pena de si mesmo e se rebaixar a lamúrias quanto a desgraças do passado que deviam ser enterradas a despeito de qualquer resultado.

Devia era lembrar sempre de ser positiva sua maneira de encarar o mundo, a vida. Positiva devia ser a imagem de si mesmo. Positiva devia ser sua (re)análise de vida. Positivas deviam ser as conseqüências. Fossem o que fossem as letras batidas numa simples folha de papel acerca de uma vida. Um papel não traz um resultado. Não de fato. Atitudes sim. Positivas e de reação.

9.8.05

Parada de um personagem

Entre quatro paredes. É quase como uma redoma. É jaula, é paz. Falsa paz, mas paz.

Desejo de ali permanecer no recanto da fuga. Deixando os problemas no quintal. Escondendo as dúvidas no tapete de entrada.

Enganando que é só isso. Ele e o quarto. Não há decisões. O vácuo. Manter as inconstâncias sob a escuridão da ignorância. Ainda que momentânea.

O teto parece tão simples, tão próximo. Tão. Tão. Paredes tão firmes que ali quer ficar.

Ali, são as regras dele. É o seu tempo. E o seu intervalo.

Não há impossível porque são eles. Ele, o quarto e o retorno dele.

Às vezes, olha através da janela. Vê as flores crescendo no muro: 'Hera'. Um novo tempo talvez. Talvez.

Lá fora, na realidade. Ou ali, ao seu redor. Sempre há vida.

Ou um fiapo que quase desiste e se isola para recuperar a força.

Carga mínima de energia para reabastecer certezas, redescobrir metas e planos. Reestruturar o sonho destruído.

Procurando a resposta que não existe, assimilando que não há consolo.

Pensar já traz o medo. A decepção. A frustração. Volta, então, às paredes. Ao teto. E ao seu âmago.

Amanhã, ele mergulha no abismo...

3.8.05

Clausura

Consegue imaginar um quarto? Fechado. As paredes são brancas, mas a luz é daquelas meio amarelas. O reflexo é terrível, aspecto sujo. Como se o ar fosse um misto de fumaça. Não há muito a ver. O quarto está vazio, embora seja comprido.

Por vezes, dá para brincar de identificar imagens na parede. Seriam leões? Carneiros? Ou seriam morcegos? Mas, então, é só apertar os olhos para ver que são manchas.

Lá do outro lado da imensidão, há uma janela. Nem alta, nem baixa. Nem larga, nem estreita. O suficiente para ser vista. De qualquer quina. O exterior pode ser tudo. A imaginação pulsante. O rio e sua energia correndo em diferentes rumos. As árvores, frondosas, espalhando vida para todo lado. Como um oásis mental. Símbolos de liberdade e contentamento.

Porém a caminhada até a janela é infinita. Quanto mais passos, ainda que largos, mais distante a miragem. Penumbra na alma encarcerada. Agora é tempo de futuro...


“Não existe nada vivo
Dentro desse quarto
Todo dia eu pego o medo
Meço, mato e guardo
Num cansaço calmo de sobreviver
Cantar pra subir
Descer e dar uma banda...”
(Um dia na vida, Cazuza)

28.7.05

Espera

Parada na porta do restaurante. Andando de um lado a outro. Detestava esperar. Não estava ali mais do que cinco minutos, mas a agonia aumentava.

Atravessa a rua. Cigarro. Cigarro. Se queria parar de fumar, era melhor comprar a varejo... A barraquinha era a solução.

Uma “moça” compra balinhas. Uma mendiga pede centavos para alguma coisa inaudível... Uma fileira informal de “moças” se estende ao longo da rua.

Nem bem comprou o cigarro avulso e o vendedor gritou: “Bora, vamo trabalhar aí... Circulando, circulando...”. Ótimo. Um ambulante cafetão. A diversidade da Lapa... “E eu aqui...” – pensou, já acendendo o cigarro.

Esperando again na porta do bar, mendiga pedindo trocados – “será que estou ficando louca? Isso já aconteceu...”; pensou em como tudo havia começado. Tinha saído de casa no dia anterior, por volta das sete horas, logo depois da visita “inesperada” de um “amigo”.

Em pouco tempo, estava cercada de amigos queridos, jogando papo para o ar, em Copacabana. Uma garrafa de tequila from Mexico. Herradura. Sal, limão. Papo, papo, papo... Uma garrafa de cachaça. 51 mesmo.

Ao longo das semanas de esbórnia, a variedade do bar estava ficando inversamente proporcional aos porres... Papo, papo, papo e.... lá foram à praia.

E como isso acontecia? Logo eram muitos... Dos 4 iniciais, o grupo já estava multiplicado até ilustres desconhecidos. Hotel. Mais garrafa de cachaça, mais outra... Inglês, português, embriaguez...

Gente se exercitando na praia, em todos os sentidos. Banho de mar. Conversas e pássaros cantando... Intermináveis segundos loucos. Mais gente, mais gente. Dá um dois, pega a nota, pega o fósforo, queima idéias, atordoa lembranças...

Piscou os olhos e o dia está lindo... O sol está nascendo. Uma maravilhosa praia. Da multidão para os quatro, para o quarto; só risos. Acende mais alguns cigarros e lá tinham ido dois maços numa só noite...

Abre os olhos. Quantos momentos passaram??? Em horas, ela não sabia... Trabalho, que trabalho??? Quem, quando...

Vamos agitar, agitar. To get up. Voltar às origens. À praia novamente. Será que ela se enganou; tinha mesmo ido no hotel??? Surrounding... Lá estava o inglês...

Tinham comido alguma coisa? Sabe lá... Bebe, bebe, bebe. “Não, não falo italiano”. Fuma mais. So funny. Muitos momentos e “vamos ver um filme?” – perguntou o amigo.

Piscou os olhos e já era noite. Nove horas. Dogville no desejo, na TV; real life outside... É hora de voltar para a casa. Todos até o ponto. Ela pensa: “que casa, para qual casa eu vou? Está, ok...”. Era melhor ir para o apartamento, tinha que pegar o carro de qualquer jeito...

Toca o celular dela. “E aí, qual a boa da night?”. “Não sei, na verdade, eu estava indo para casa”. “Você está onde?”. “Em Copacabana.”. “Está ‘afins’ de beber, tô saindo agora”. “Putis, eu ainda não consegui voltar pra casa...”. “Vamos então...”. Suspira e pergunta: “Onde?”. “Na Lapa, naquele bar de sempre”.

E lá estava ela esperando... Mais alguns copos de vida “confraternizada”...

20.7.05

Feliz Dia do Amigo!!!

[ Gripe, cansaço, aniversários, shows, trabalho... enfim... Desculpem o meu sumiço de novo... Este texto de hoje vai para homenagear os amigos, sem os quais não existimos. Aqueles, de todas as horas - as tristes e as boas, mesmo quando não encontramos os amigos há séculos... Quando precisamos, os verdadeiros amigos sempre estão por perto!!! ]


Recordatio: Duplo Soneto de Maricá



Natureza tão sábia
Tão sublime.
Pragmatista em nossas vidas.
Aquilo que, usual, brincamos de ver.

Trouxe o vinho nas divinas uvas.
Suco fermentado de maçã; sidra.
Como Natureza, não se deve encanar. Solte a mente.
Lá vem cana. De açúcar. Agüardente, gente!

Momentos que passam. Vão e vêm.
Moinhos de saudade, fez ventar,
faz cachaça, fez sabor, faz lembrar.

E da cevada? A cerveja esperada.
Do cacau, o chocolate, nada igual!
Trigal, o pão nosso de cada dia; trigo trivial...

Natureza tão sábia.
Tão sublime.
Chove quando é preciso nascer.
Providência divina para germinar o milagre da paz.

Trouxe o frescor. A maresia.
Água para todos, quem diria...
Sem arco-íris; Colorido de instantes.
Uivar da garoa; sua voz, Natureza.

Momentos que passam.Vão e vêm.
Não se remoer; só emoção.
O resto é “cafezinho”...

Memoriae. Palavras em metonímias e metáforas.
Quanto mais eu pense, só resta agradecer.
A vocês e à Natureza.

5.7.05

O fabuloso mundo das crianças...

Ele, seis anos, parado, no meio da sala. O padrasto desce as escadas.

- Filhinho, papi quer falar uma coisa. Senta aqui.
- Tá.
- Sempre que você acabar de brincar, você arruma o seu quarto, ok?
- Tá.


Almoço. Todos quietos. O pequeno se manifesta.

- Papi, Renato falou uma coisa no colégio que eu não sei se entendi...
- O que ele falou, filho?
- Ele falou “cu”... O que é isso?
- Hum... Bem.... É o que todos usamos para ir ao banheiro...
- Ah....eu pensei que fosse pescoço....mas pescoço a gente não usa para ir ao banheiro...
- De uma certa maneira, você está certo. “Cou” é pescoço, mas em francês... Você lembra das suas aulas?


A criança não responde e continua comendo, pensando. Todos vão ver tv e ele, quieto. Horas depois, o pequeno se manifesta:

- Papi, vamos brincar?
- Claro, filho.
- Você sou eu e eu sou você, tá?
- Ok. E aí?
- “Então, você já brincou, vai arrumar seu quarto”...


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Noite seguinte, festa na casa da avó paterna. Preparativos. Bolsas. Festa e farnel. Logo está a família toda reunida. Pai, padrasto, filho, mãe, avós, primos, madrinhas e padrinhos, amigos... A vó começa a brincar com o netinho e pergunta:

- Meu fofinho, você gostaria de ter um irmãozinho?
O pequeno grita, eufórico:
- Sim, quero, quero, quero!!!
Silêncio. A curiosidade da avó persiste:
- Mas você acha que vai ganhar um irmãozinho da sua mãe ou do seu pai?
- Ora, vovó... Da mamãe, claro! Meu pai não tem namorada...

Desconcertada, a avó continua:
- E você, cadê a namoradinha?
Ele faz cara de pensativo e permanece calado.
- Vovó já sabe, você vai namorar a filha da Tia Valeria, quando ela crescer, né?
- Ih, Vó... Claro que não! Quando o filho da titia crescer, eu já vou ser adolescente...


Papo sim, papo não. Muita comida. Volta para casa. Padrasto, mãe e filho no carro. No céu, um verdadeiro “espetáculo” da Natureza.

- Olha, Amor, que lua linda. Ela está amarela!
- É, está linda mesmo.

O filho faz cara de desdém e afirma:
- Nos meus tempos, a lua era branca.
- Como assim, filho? Você tem seis anos. Você não sabe o que está falando... – diz a mãe sorrindo.
- Claro que sei. Quando eu era pequeno, a lua era branca. Agora?! Não sei não...




[E que as luas de vocês sejam brancas, amarelas e de todas as cores...]

2.7.05

Morrer

Ter a sua sombra uma espada prestes a escorregar,
cravando como um punhal.
O peso dos sonhos e medos.
A ânsia do tempo.
A surpresa da infinidade de alguns segundos.
O inesperado temido.
Simples certeza - daí tanto pavor.

24.6.05

Carta a um pai

Querido papai,


Eu sei, Papaizinho. O senhor fez tantos planos... E me mandou aqui para imensidão do Rio de Janeiro. Para uma das melhores faculdades. Mas, não se preocupe, estou aprendendo bastante...

Ontem eu conheci uma moça na praia de Copacabana. Ela estava contando do árduo trabalho dela. Como fica na labuta todos os dias. Trabalha até altas horas. E ganha muito bem... Realmente os salários aqui são melhores...

Fiquei também tentando descobrir sobre os doces que nos dão nas festas. São todos muito gentis... A boca vai se desfazendo, uma sensação dormente, mas não se preocupe, Papaizinho, estou aprendendo bastante...

Eu sei, eu não fumava. Mas aqui você encontra cigarros das mais variadas marcas e outros, meio artesanais; muito interessante. Mas aprendi que não devo passar a língua muito úmida...

E tenho conhecido muitas pessoas. Aprendido línguas diferentes... Estava ontem perguntando como se descobre um Homem numa boate GLST. Cheia de siglas e gírias esta cidade, meu Papaizinho... E como saber que um cara, numa festa, querendo te beijar, é bi ou não??? Tantas dúvidas nesta cidade... Mas estou aprendendo...

É muita informação. Conheci muitas bebidas diferentes. Provei absinto cantando Moulin Rouge... Papaizinho, você conhece este filme: Moulin Rouge? Se você conhece, devo confessar que não vi borboletas, ou fadinhas, mas creio que eu vá descobrir, aqui no Rio, se existem ou não...

Papaizinho, aqui as pessoas sabem tanto... Elas assistem a filmes bem liberados. Dá para ver a vida em ângulos bem diferentes... Ah, meu curso? Tem me ajudado bastante. Outro dia, ameaçaram nos prender numa boate, mas eu citei algumas leis e eles nos liberaram sem problemas... Aqui também ocorrem “injustiças”, mas agora eu estou aprendendo o que é “lei” e o que é fora da “lei”.

É muita informação, Papaizinho, que não sei por onde começar...cada dia uma coisa nova... Preciso que o senhor me dê uma luz, ou será que devo dar à luz??? Porque acho que estou grávida, Papaizinho. Você sempre quis um netinho, não?

O pai é/será meu ex-namorado; um traste carioca, ligeiramente gigolô. Ele me trocou por uma mulher mais experiente do Rio. E mais rica... Sustenta ele e tudo... Talvez ela ajude a sustentar seu netinho... Não, eu não sei ainda, mas, aqui, já sei, existem fáceis exames de farmácia...

Porém, não se preocupe. Crianças são uma verdadeira bênção; tenho inclusive um “amigo” de 16 anos... “saímos” bastante juntos e ele me ensinou muita coisa. E ele é meu primeiro amigo gay; apesar de começar a achar que ele é bi...

Em todo caso, vou passar a ter menos despesas. Estou dividindo apartamento com uma amiga e ela me disse que, se eu estiver grávida, vai me ajudar a cuidar da criança... As amizades aqui no Rio são bem mais íntimas, dá para aprender muito sobre relacionamentos humanos...

Estou indo de um extremo a outro aqui nesta cidade maravilhosa... Não creio que fosse viver isso tudo no Mato Grosso... Papaizinho, você tinha razão ao dizer que eu iria aprender muito mais aqui... Não creio que eu consiga voltar a morar aí, meu mundo se abriu todo... Mas, não se preocupe, estou bem...

Ah, minha amiga de Copacabana me ofereceu um emprego e tudo... Acho que logo vou poder me sustentar sozinha aqui... Mas, não se preocupe... Estou morrendo de saudades e logo enviarei notícias.

Sua criança,



Pamela