30.5.11

Vício...



Largo o copo
deixo o cigarro
não o vício de você
em cada beijo descarado

São diálogos intermináveis
o que não digo
o que sufoco
em atitudes pouco palpáveis

Largo o juízo
deixo a brisa de sonhos
nesse você, vício

São olhares sem fim
palavra morre tímida
na ilusão disfarçada

Oh, senhor
não tenho forças
não sei convencer
e nem sei o que querer

Oh, estupor
de não saber
a coisa certa
o que fazer

Gastasse eu
metade do martírio
de omitir, em palavras
à alma, talvez, desse alívio

Fadado à poesia
certo, você talvez esteja
pois não se esgota a magia
nem diante de outras rotas

Já quase sou
eu e você
de tantos papos
sonhados e esquecidos

Profana minha memória
nesse não vivido
inconsciente, pulsante
ardente, como verdadeira história

E real, você me olha
sério; eu ignoro você
séria; e me vou...
fingindo correr

Não sei convencer
não sei o que querer
oh, senhor
tampouco esquecer você...

9.5.11

Quebra-cabeça ao contrário no vício de prazer...



Corpo ao meu lado
essa pela branca
esse suor, pelos roçando

É o seu cheiro
tão vivo
dentro, fora de mim

Quando somos um
vejo o brilho dos seus olhos
verdes, esperança de amor

Gosto de enrolar seus pelos
enquanto me fundo ao seu corpo
tomada por cheiros, gostos

Fala baixinho, essa voz
tão doce, envolvente
aí, eu vou, volto

Essa gota de suor
delícia, deslizando por seus braços
no compasso do prazer

É um contorno
de vida, memória
sombra mágica, rotatória

Agora eu o tenho
e o amo tão assim
tão junto, intermitente

Quando ficam lençóis virados
as marcas do seu corpo
tudo é só prazer

Amor, amor, amor
não é escolha
são elos de sentimento

Paixão é essa loucura
de ter, rir, falar, gozar
no contínuo, no "além-agora"

O ultrapassar do prazer
o jogo de memória "colorido"
em um ciclo, sem realidade

Agora, sozinha
seu corpo é o grilhão do ainda
sinto seu cheiro no ar

Mas é como chuva
vem refrescando a alma
é bom, logo passa

Amor, a gente não escolhe
paixão, a gente vive, sofre
no quebra-cabeça ao contrário

Suspiros, suspiros, suspiros
e aí de novo esse corpo
esses olhos, vício de prazer...

3.1.11

O adeus é que é para sempre...


Os minutos de ansiedade passaram rápido enquanto esperava. Alguém que sempre a fez esperar sem nunca deixar de estar ao lado. Ele chegou com aquele sorriso brilhante, aqueles magnéticos olhos verdes, sua "kriptonita", como já tinha sido apelidado. Mais velho, mais charmoso, cabelos grisalhos crescendo a esmo.

Quantos anos de ausência física dessa vez, dois, três anos? "Não, não faz tanto tempo assim, faz?", indagou ele. Frente a frente, não parecia mesmo. Com eles dois, o tempo era sempre congelado.

Copos e mais copos sem segundas intenções. Os outros quase casamentos. Quase certezas que não vingam e os salvam... A intuição que os une, que os prende.

Como a eterna maré, os pés dele a procuram por debaixo da mesa. O toque de pele é íntimo como se nunca estivessem separados. Ele se aproxima, encosta o rosto e a barba por fazer que ela adora.... Ela diz, antes de se inclinar para beijá-lo: "você está querendo me roubar um beijo, não precisa..."

Depois, ela o afasta, felina e fugidia. Volta aos copos, aos papos, a velhas histórias que os rodeiam, repetidas, misturadas, cheias de coincidências, encontros e desencontros. Voltou a ser aquela velha criança feliz e ele a reconhece, satisfeito, como uma antiga alma pueril.

Sorri, divertida, contando as travessuras da vida adulta. Mais perigosas, mais sedutoras, mais loucas. Fala de suas viagens, entre as muitas que jamais fizeram juntos.

Copos e mais copos cheios de olhares e respirações. Permeados de planos e brincadeiras. Ele ainda quer ser o "escravo sexual"; em outro estado, melhor ainda....Eles gargalham, juntos, imaginando as manchetes de suas experiências, as vividas e as que sonham naquele instante.

Logo vão para a estreia deste carro, para aquela velha praia, aquela velha memória renovada, no selo de vínculos indestrutíveis pelo tempo. De novo, dois adolescentes, porque ainda vibram, ainda sentem, ainda voltam no tempo deles, para eles mesmos. Praia, carro, festa; como crianças, mostram as novas cicatrizes...

Depois, casa. Parados à frente do prédio dela, ainda conversam. Ele desliga o carro, as palavras não se esgotam. De repente, horas depois, dizem, quase ao mesmo tempo, em olhares que se encaram: "então tá". Ele se reclina, encosta a cabeça no corpo dela, enquanto a abraça. Assim ficam, calados, vários minutos.

Aí ela se afasta, olha no fundo dos lindos olhos verdes, diz "tchau", abre e fecha a porta do carro. Sai andando para a porta sem olhar para trás... Alguém disse uma vez que o "adeus" é que é para sempre....

3.12.10

Todas as cenas que eu queria viver...todas as palavras que não são ditas....

Vocé é como uma cena de um flme. E eu ensaio todos os diálogos... Eu me sinto parada no tempo, na similaridade com o passado; porém, congelada.

Não sou a menina irresponsável e não carrego a inconsequência dos vinte e poucos anos. Em raras exceções, hoje, peso o depois de algumas atitutes e fico com minha característica espontaneidade entalada na garganta... Você é minha exceção de controle. De não "que se dane"... E, confesso, isso não tem terminado bem...

Quero ser indiferente como você. Inconstante, já sou.... Quero não me importar. Quero não virar o rosto ao ouvir sua voz ou seguir o contorno de seu corpo, à espreita... Quero não prestar atenção a qualquer resquício de sua existência. Não ficar feliz ao ouvir o som da sua risada, nem me abalar com minha transparência, não literalmente e literalmente, mediante sua presença dúbia.

Como uma sombra que não acompanha. Como um eco diferente, sem sentido. Naquela eterna ausência infinita...

Não que eu não queira, só não posso estar assim perto de você dessa forma... o não dito, eu bem sei,queima....

19.10.10

O País que eu vivo

Se eu parar para pensar, eu ainda me lembro de minhas primeiras viagens internacionais (cheia de dívidas para tal...), quando eu me apresentava como brasileira: carnaval, Amazônia, Xuxa, futebol, entre outros assuntos da mesma linha, eram os principais motes. Hoje, ouço, com orgulho, meus amigos estrangeiros pedirem dicas sobre o Brasil, porque querem investir aqui. O Brasil foi o último país a entrar na crise financeira internacional e o primeiro a sair; mais importante ainda, sem arrochar a população com diminuição de salários, congelamento de preços e outras tradicionais medidas do antigo país. Do país do futuro que dizíamos ser, será que chegamos ao bom futuro? Eu não me engano, há muito o que fazer.

Mas digo, feliz, que, no País em que eu vivo, nos últimos oito anos, o orçamento do MEC duplicou, permitindo, até mesmo, um Plano Nacional de Educação. Educação que, aliás, é considerada a linha prioritária do Governo para sobrepujar as questões de desigualdade (o que vai muito além de assistencialismo). Os dados da presidência da República indicam a construção de 214 escolas técnicas profissionalizantes (mais do que nos 100 anos anteriores). E, até o final de 2010, 380 institutos de educação profissional em funcionamento no meu País.

Dados corroborados por pesquisa realizada no Centro de Políticas Sociais da FGV, que mostra, de 2004 a 2007, um salto de cerca de 75% no estoque de pessoas que já fizeram cursos de educação profissional em qualquer nível. Além disso, essa pesquisa indica o curso técnico como um ganho salarial de 14%, comparado aos outros que possuem apenas o Ensino Médio.

Criado em 2003, o programa Brasil Alfabetizado já beneficiou mais de onze milhões de jovens e adultos em todo o País, até 2008, em ações desenvolvidas em parceria com os Municípios com maior taxa de analfabetismo, para universalizar a alfabetização de brasileiros com mais de quinze anos.

Mas é óbvio que isso não é suficiente. Então, deixa eu citar os dados de pesquisa do Ipea, segundo a qual, de 2004 a 2009, a proporção de pobres brasileiros caiu de 39,4% para 23,9%, e a proporção de miseráveis foi reduzida à metade, de 17,5% para 8,4%, de acordo com as linhas de pobreza e indigência utilizadas pela pesquisa.

Outro excelente tema para mostrar é a criação de empregos. Nos últimos anos, foram mais de 14 milhões de novos empregos COM CARTEIRA ASSINADA. Isso mesmo, 14 milhões. Sem partidarismos, apenas para registro da (bem-vinda) evolução, no Governo anterior, com dados do MTE, tinham sido 780 mil empregos.

E o pré-sal gente? Que orgulho da Petrobras! E, bem recentemente, com a capitalização da Petro, esta passou a ser a quarta maior empresa do mundo, de acordo com os dados do ranking FT Global 500, do Jornal Financial Times. Sem contar que o Governo aumentou a participação na estatal para mais ou menos 48%, nas estimativas posteriores à oferta de ações da Petrobras.

Tudo bem. Eu acredito que haja muitas pessoas descrentes em dados, em pesquisas, então, eu me pergunto se elas não olham ao redor... Eu adoro viajar. Então, de início de conversa, já posso atestar a facilidade de viajar atualmente com um câmbio favorável à fortalecida moeda brasileira.

E não só viagens, é possível ver brasileiros com maior poder aquisitivo! Nunca se gastou tanto com bens de consumo durável, como televisões e computadores, além da própria queda dos preços. Outro dia, em uma mudança de um amigo, achamos uma revista de uns dez anos atrás com um anúncio de uma televisão dessas, na moda atualmente, de muitas polegadas, pelo preço de uns 50 mil reais, acreditem....

Eu gosto de viajar, gosto de ouvir histórias, gosto de ouvir as pessoas. E tive o prazer de escutar pessoas pelo Brasil que puderam estudar graças ao Pro-Uni, que puderam reformar a casa, até mesmo mandar o filho para um curso de idiomas no exterior nos últimos anos. Pessoas que, antigamente, batalhavam para ter o que comer. Tem matérias sobre isso em vários jornais, personagens reais, divulgadas até mesmo no exterior.

Outra questão de crucial importância, finalmente, é o meio ambiente. Com muito atraso, o mundo está começando a se dar conta de que vive na Natureza e precisa preservá-la; mais do que isso, o mundo precisa respeitá-la, porque a Terra não existe de forma isolada, com as fronteiras que nos impomos, por meio de países...

Com suas belezas naturais, o Brasil tem que dar o exemplo. Por isso, fico extasiada ao ouvir que, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente, as previsões indicam que o desmatamento na Amazônia, no último período – 2009/2010 –, será o menor desde 1977, superando o resultado recorde de 2008/2009. Sem contar o envolvimento do País com a economia verde, o desenvolvimento sustentável etc.

É pouco. Tudo isso é muito pouco. Porque esse País, cheio de pessoas, conhecidas internacionalmente por sua bondade e excelente humor, tem força de trabalho, massa crítica, em uma Natureza invejável mundialmente. Litorais gigantescos. Sabe Deus que potencial de biodiversidade ainda escondido na Amazônia...

O meu Brasil tem um monte de pesquisadores maravilhosos, que estão sempre fazendo descobertas importantes para a Ciência, Tecnologia e Saúde, graças ao investimento feito na área, à criação de redes de estudo, baseadas no pensamento de trabalho em parceria, conhecimento compartilhado... Um bom exemplo é o trabalho na área de doenças negligenciadas, que, como o próprio nome diz, recebem investimento reduzido na maior parte dos países desenvolvidos ou por parte da indústria porque acometem populações pobres e marginalizadas.

Com a aprovação da Lei de Inovação e incentivos fiscais para as empresas interessadas em aplicar em pesquisa e desenvolvimento, o investimento público e privado aumentou de forma expressiva. Sem contar que esses investimentos não foram polarizados no já renomado eixo de pesquisa sul-sudeste; houve programas específicos regionais para diminuir as desigualdades. Característica, aliás, que não foi privilégio da área tecnológica e científica nos últimos anos.

Meu sonho é que, cada vez mais, a sociedade se manifeste, para que se possa promover o diálogo civil e social e discutir questões cruciais como aborto fora do âmbito eleitoral e dentro de uma perspectiva participativa, com as informações necessárias para qualquer discussão – no caso, a óbvia questão de Saúde pública, aliada a questões ético-religiosas e sociais – e devido apoio governamental.

Eu poderia escrever por horas sobre as coisas já feitas, sobre o muito que já se conquistou. Entretanto, também posso escrever sobre tantas coisas que ainda precisamos incrementar, ou fazer. Por isso, mais do que qualquer questão partidária, o que me preocupa é a continuidade. Acredito na velha máxima de que não se mexe em time que está ganhando...

E, ao dizer isso, digo a preocupação com políticas sociais, de reajuste real elevado do salário mínimo,de ampliação de infraestrutura - está aí o PAC -, de diminuição da dependência internacional, para fortalecer um País, sem dúvida, “abençoado por Deus e bonito por Natureza”, que já teve muitos avanços e merece a oportunidade de seguir esse caminho. Raul dizia que sonho que se sonha junto é realidade e é óbvio que esse sonho de um Brasil cada vez melhor precisa da participação e mobilização do povo, caso contrário, é um sonho vazio em sua essência.

22.9.10

Sempre Saramago....

...É deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos no ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual...

...Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar...

...Se não sais de ti, não chegas a saber quem és...

José Saramago

29.8.10

Alors...

Mudei de ideia e quero falar sobre a esperança de ver o novo no mesmo lugar. Sobre a possibilidade de mudar uma história e guardar uma lembrança mais amena. Sobre todos os outros lados que existem, mas, por vezes, não vemos, viciados no mesmo bom ou no mesmo ruim.

Eu quero falar sobre o sol sumindo no céu, sob uma luz em diferentes tons, fazendo sobressair frondosa árvore, logo ali, em frente à varanda de um novo lar.

Quero rir das histórias de um passado recente e ficar feliz, ao ouvir que parece que o personagem nunca se foi, sempre esteve por ali. Cheio de memórias e gargalhadas.

Quero fazer planos e encarar os novos desafios com aquela ansiedade que move alguns personagens como eu.

Quero continuar bailando na minha indecisão, tendo a felicidade como companheira em minha distração.

Eu quero usar a energia em projetos produtivos; aprender, aprender, aprender. A necessidade volta em carga total.

A saudade fica debaixo do braço, como parte do corpo. Aí, o personagem puxa da memória o céu, lindo, como sempre. A música na praça. As mãozinhas de bebê e a inocência. A cerveja gelada no pé sujo, impregnada de amistosos papos inesquecíveis. E todas as metáforas de felicidade congeladas no passado, no futuro por vir e no presente a ser redescoberto.

Alors...

20.8.10

Canção do desperdício

"Rosa de amor em filigrana de ouro
na poeira das gavetas onde sopra
tua voz talvez, quando me chamas.

Rosa de uma raiz que não ousamos,
mais real que as aparências deste mundo
onde sofremos viver separados.

Não vale o peso do metal, nem a feitura:
vale a sensualidade destas almas loucas,
vale a vida que passou, soberba,
e não nos lança um olhar sequer".

Lya Luft

5.8.10

De novo, o amor....

"Como o amor muda? A resposta é como nós mudamos por amor. Continuamente. Interminavelmente".

Do filme The Dive From Clausen's Pier, não tão bom assim, mas com reflexões interessantes.....

2.8.10

O Leitor

Vocês já viram esse filme? Acho o filme um espetáculo e, francamente, gostaria de ver novamente após visitar a Alemanha. Acho engraçado que tenho amigos que sempre lembram os nomes dos atores, dos diretores, sabem a nacionalidade e outros filmes que eles fizeram. Eu, se gosto, conheço o diretor. Mas eu sempre lembro de cenas, inteiras ou pedaços, que ficam perdidas na memória, guardadas sabe lá por que nó do cérebro.

Eu lembro particularmente de uma cena desse filme. O personagem principal, vivido brilhantemente pelo famoso ator Ralph Fiennes, conversa com uma outra personagem que comenta algo do tipo: "Será que essa mulher sabe o que fez com a sua vida?". Se vocês pararem para pensar, vão encontrar pessoas assim nas suas vidas. Que mudaram seu destino, sua rota. Que fizeram vocês descobrirem novos ideais. Ou perderem os que tinham. E que mudaram, para sempre, partes de vocês. Memórias marcadas por sorrisos e lágrimas. Pessoas assim são tatuagens vivas. Sempre capazes de marcar, machucando ou embelezando, até mesmo na ausência...

1.8.10

No aniversário, uma paródia....

Por Você
Eu dancei escondida em Sampa
Eu limpei
Os trilhos desconexos da memória
Eu fui de carro
Do Rio a Paraty
Eu aceitei
A vida como ela é
Viajei a prazo
Pro inferno
Eu tomei banho gelado
Longe de você
Por Você!
Eu deixei de beber
Ou bebi caipirinha
Por Você!
Eu viajei para o outro lado do mundo
Eu trabalhei na cidade sem alma
Prá virar burguês...
Eu mudei
Até o meu nome
Eu vivi
Em greve de amor
Desejando sempre todos os dias
A mesma pessoa....

Quando o passado bate à porta, cheio de fotografias, poemas e cartas, é fácil entender como alguém muda completamente a vida de outro alguém. Ao mesmo tempo que dá forças para continuar e realizar muitos sonhos, também faz sonhar com coisas antes impensadas, e que nunca mais fazem sentido sem o outro alguém. O que é pior? Perder o que nunca se teve mas que, portanto, não se sabe, ou perder aquilo que só se rascunhou como uma perfeita imperfeição? É possível entender e, ao mesmo tempo, não perdoar a ausência de alguém, até mesmo em uma amizade.É difícil encarar o passado você, a perda de um lado sério em outro alguém, um lado responsável, um lado respeitoso, um lado desperto para o amor. Está aí a confusão.

"Não penso em tudo que já fiz
E não esqueço de quem um dia amei
Desprezo os dias cinzentos
Eu aproveito pra sonhar enquanto é tempo"...

5.5.10

A character in Wonderland

Às vezes, a gente se esquece. De quê? Pode ser um esquecimento simples: a chave do carro, a senha do banco, o pagamento da fatura. Agravantes, porém, para qualquer um desses quadros, são os notórios blecautes da alma. O apagar de recordações, a extinção de momentos, a perda de subjetividade.

É a tristeza de não saber mais o porquê de uma cidade ser o porto de alegrias, de não valorizar o refúgio de amigos; ainda pior, de não se reconhecer em nenhuma nuance, nenhuma memória, nenhum resquício de "eu". Não por ódio, não por revolta, não por dor. Apenas uma ausência de vida, um apagar de luzes de (in)consciência.

Como uma "anestesia amnésica", uma perda gradual de identidade, no turbilhão de mudanças, amores e vampiros sociais. É como esquecer de lembrar. De ser, somente ser. De viver, sendo. Sendo somente assim a vida: esse esquecimento, no coletivo, é o cotidiano.

A pílula mágica para o sonho é a natureza. Até mesmo o que há dentro de nós, que nos move para apreciação de cada segundo. Daqueles mais simples, nos quais seu amigo te puxa e dá um abraço. Sua amiga estende o copo, brindando sua existência. Aquele companheiro de colégio virou o pai ou a mãe de uma criança, linda, inocente, sem dente, sem malícia, a sorrir aos seus pés.

É o feitiço da vida que nos arrasta para a magia do agora. Esse mesmo, sim, onde você fala besteira e ri, sem motivos, sem parar. Onde se flagra, dançando, ao som jamais ouvido, de uma cultura tão desconhecida, lembrada no instante único, até então, não existente. Aí, nesse instante tão momentâneo, tão fugaz, tão banal, tão simples, tão simbólico para a memória, está o elo para nossas personalidades, nossas existências, está o resgate da memória anulada na guerra do cotidano. Como um dos meus personagens pensou, aí estão as velhas esquinas, cheias de histórias e pessoas, com os bons e alimentadores resquícios de humanidade. Uma delícia.

Com o que sonha a simplicidade desse personagem? Com o nascer do sol ao lado de amigos. Estar cercado de animais conhecidos. Beber cerveja gelada ouvindo chorinho, de madrugada, sem susto, sem juízo. Cantar parabéns, comer bolo, estourar bola e catar quinquilharias, como crianças, as mais sábias, inocentes e felizes. Fofocar com amigas, em histórias de anos e anos, sendo reescritas em mais um agora. Receber telefonemas, horas cheias de risos e lembranças, planos e esperança, sonhos e até auto-perdões.

Estrangeiro nele, esse personagem, que ainda assim é mais do que local no Porto Seguro desse agora reencontrado, tão único. Abre os armários, deixa ventilar a alma, joga fora o velho e abre espaço à vida. Sem nunca deixar de guardar o que é único, mesmo esquecido no canto da memória-coração-praga do cotidiano.

O personagem canta para o Rio, que é puro êxtase, uma linda "droga" de euforia, de torpor, de loucura, amor e eternidade. Nessa cidade maravilhosa, nunca é tarde e ele é a criança feliz, a Alice que sonha seis coisas impossíveis antes do café....

Passado...

A verdade é que as letras nos procuram... Só dá você no meu coração, tanto que as palavras fogem para dentro de mim...

E realidade cada vez mais parece gritante ao meu redor, chamando para você... Sua ausência é uma provação dos meus sentimentos.

Sinto sua falta. Sua companhia. Seu gosto. Ardem como uma tatuagem recente...

19.2.10

Tem coisas na vida que não me canso de dizer...

E nem quero deixar de dizer eu te amo. Nem quando o amor não for correspondido. Nem quando houver sofrimento e discórdia. Nem quero deixar de amar, é tão triste descobrir, por exemplo, que um amigo não é tão amigo assim.

Então não me canso de dizer eu te amo, não me canso de abraçar ao mundo - e vez em quando, quem eu não devia... E não me canso de cantar ao meu Porto Seguro, essa cidade maravilhosa, que me encanta, que me salva e que me acolhe em todas as minhas nuances.

Da foliã transloucada à "menina" em busca dos amigos, queridos e saudosos. Quando me vejo triste, assustada, apaixonada, ou qualquer outro sentimento diferente do natural feliz, eu sou só uma menina. E, no Rio, estou em paz com a maravilha que a vida me traz...

Em tantas canções de amor ao Rio, porque, em fevereiro, tem carnaval, numa cidade ainda mais abençoada que o país. "ALucynate", certa vez, disse que o Rio era encantador com a mistura de montanhas, praias, em um mix urbano, louco, frenético, multicultural. C disse, também, que o "Rio is a hard act to follow". L agradeceu por não ter nascido no Rio, já que todos os amigos cariocas não se viam longe do Rio (nem eu, na verdade, mas é sempre a doce espera do retorno feliz...).

Mas é isso aí... é possível lembrar outros tantos comentários, melhores descritos na imagem de um sol, lindo, brilhante, paralelo a uma nuvem, como uma flechada da Natureza, entre o Morro Dois Irmãos, em um democrático Baixo BB, no Leblon, logo ali perto da "comunidade". Nem que eu explique, mais e mais, essa conjunção de palavras e da Natureza vai ser traduzida naquela bela imagem; seguida de "ufa, estou no Rio de Janeiro".

O mar, vários dias, era uma piscina. Brilhando. Um oásis para sensação térmica de 50º. E, querido A, não adianta, pode fazer um calor de 80º, ainda é o Rio onde acontecem coisas únicas. Multidões sedentas - literalmente - ajudando ao atarefado ambulante, para poder beber mais rápido. Ou então, guerra para comprar sacolé de caipirinha... E, no meio, a gente tendo visões de que os carros da polícia eram vendedores da cerveja azulzinha...

No Rio, tem bloco de protesto contra a "institucionalização" dos blocos. Contra essa repressão velada da espontaneidade. Aliás, Rio sem mijo é melhor, mas não custa aliviar os foliões bebuns ou fornecer banheiros em mais número. Afinal, se é para passar a noite na fila do banheiro, muita gente - não fossem os cariocas o assunto... - nem sairia de casa.

Fantasias de todo o tipo. Protesto. Galinhagem. Filmes, livros. Atores. Artistas (eu bem queria ter tido a ideia de sair de Frida, ai, ai; ano que vem, nada original, talvez me anime mesmo assim). De táxi ocupado (?) ou livre (?), a cargo da imaginação carnavalesca de vocês...

O Rio é a galera cantando no ônibus. Gente oferecendo água no engarrafamento. É o biscoito Globo da praia. Gente se prontificando a pintar o rosto de desconhecidos. É o ambulante, parando de trabalhar, para ajudar uma menininha perdida...

Não, não existem palavras. Terça de carnaval. Pouco antes das cinco ( da matina!), é possível encontrar amigos, em festa, como se não houvesse amanhã - esse é o segredo, não? - em plena Lapa. Uma Lapa, borbulhando, em ritmo de celebração. Mesma Lapa onde, no meio da multidão, encontrei um amigo inglês da Amazônia e um ex-namorado...

De novo, Praça XV, telefone sem bateria, onde estão meus amigos? Esbarro neles, os mesmos que estava procurando. E digo esbarrar literalmente, de virar para pedir desculpas...esse é o Rio. É o lugar do encontro. A mim mesma, inclusive; e quem conhece essa criatura aqui sabe que isso é uma confusão de personagens, felizes, mas loucos...

4.2.10

Queixa

Caetano Veloso
Composição: N.Siqueira / E. Neves

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Amiga, me diga...

19.1.10

E foi um adeus, também não respondido...

Meu oásis, meu aconchego de memória. Mergulho fundo no paraíso dos seus olhos verdes. É sempre um transe, um convite à loucura, ao carinho, um magnetismo que me faz grudada em você.

Fecho os olhos e quase viajo no tempo de sua voz, ao meu ouvido, seu corpo tão junto, tão tão... Suspiro e é só calmaria de torpor, agitação de desejo, de saudade...

Sonho com seus dedos de colorir a percorrer meu corpo em cores de prazer, de intimidade, de pertencimento. Quase sinto, sua pele grudada a minha, no suor de desejo, de paixão, de loucura, de entrega.

Eu fecho os olhos; aperto, com força. Sinto o peso do seu corpo. Sinto a leveza de prazer. Eu sinto um só momento de união, no silêncio, no gozo, no encontro de olhares que conversam, que atravesssam medos, que ignoram qualquer passado. É o presente de alegria e conjunção; mais do que carnal.

São só flashes de espontaneidade. Uma dança de corpos e de loucura. E vinho, copo na mão, um ser largado no conforto de viver um outro alguém. Esparramado na casa coração que é finalmente sua. E é pose de desejo, é risada de um agora tão mágico, tão etílico em embriaguez sentimental.

Abandonado, seu corpo, na minha cama, minha casa, meu coração... na minha vida, fique, e se perca em mim... Comigo. Meu aconchego de memória, tudo em você é prazer, é carinho, é amor.

11.1.10

Que o nosso amor para sempre viva....

Às vezes, a espera por algo é tão longa que os personagens se perdem pelo caminho. Já não sabem o que querem, já não sabem para onde vão, já não reconhecem, no outro, o sonho, as faíscas de paixão. Já não enxergam aquela mágica que faz do erro o acerto. É quando, talvez, o sentimento se torne verdadeiro.

Não há máscaras, não há idealismo, não há o sonho pueril, irreal. Só uma dúvida. Dúvida de gente grande. Se confia, se vale a pena, se o outro, com todos os defeitos, preenche os requisitos básicos de caráter e respeito mútuo. Se o outro te vê além; além dos olhos da relação, vê a pessoa, digna de respeito, como todos nós somos, com todos os outros defeitos.

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Gostar, gostar muito de alguém. Gostar da pessoa. Rir junto a ela. Ter, no olhar, no toque, o carinho. Chegar a parecer um cachorro recebendo carinho; porque, como na música do Cazuza, amar é “abanar o rabo”.

Gostar tanto de alguém que o arrepio é constante. No toque, um eterno abandono. São só carinhos; nosso amor, nosso prazer.

Gostar tanto de alguém ao ponto de esquecer o mundo, a velocidade, a agitação. E ficar assim, deitado, juntinho. Muito amor, filme, sempre agarradinho, até dormir nos braços de alguém.

Gostar tanto de alguém e ficar assim, em estado de pasmaceira, vendo alguém dançar, em embriaguez de felicidade. Dá para se ver, congelado, olhinhos brilhando. Seguindo e dançando o olhar junto ao movimento do corpo de uma alma querida.

Gostar tanto de alguém que adivinha o pensamento. Que diz a mesma coisa no segundo posterior ao pensamento do outro e vice-versa. Que a risada vem sem palavras, em uma sintonia inexplicável.

Gostar tanto de alguém que a estranheza e a diferença morrem diante da presença, mesmo diante do que não é dito.

Gostar tanto de alguém que já não se sabe mais quem você mesmo é, ou quer ser, para que isso seja eterno, para prender essa sensação que flutua de felicidade e espontaneidade.

É só olhar para o agora anterior e tentar pescar o sorriso, a gargalhada em uma cumplicidade inimaginável...

"Que o nosso amor pra sempre viva, minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será... Palavras apenas...
Palavras pequenas...
Palavras"

4.1.10

O amor....essa estranha abstração...

(...) farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz...

Clarice Lispector

"A mocidade é o que os italianos chamam de um nome tão bonito: la stamina. A seiva, o fogo, que permite amar e criar. Quando se perde isso, perde-se tudo".

Simone de Beauvoir

21.12.09

Antes e depois

Nada como olhar para trás e sorrir. Tudo bem que você tem vontade de dizer "porque não é contigo", quando você está no fundo do poço, amargando os piores "momentos entre safra" de sua vida, ou dizendo/fazendo a coisa mais estapafúrdia do mundo e alguém comenta "você vai rir disso mais tarde".

Não há como não rir ao lembrar de sair rolando as escadas no Festival de Cinema de Gramado. Depois que já curou o joelho dolorido, inchado, ferrado; claro. Não há como não gargalhar, ao lembrar das noites sensuais e surreais, tentando transar com um gesso até a virilha ou após uma cirurgia. Depois, a preocupação de um ponto cair e um filete de sangue escorrer é só gargalhada. Passado o susto, você lembra mais daquela vozinha do seu médico, quase previdente, ecoando, tipo aqueles diabinhos de desenho animado falando ao ouvido: "pode voltar a fazer tudo, mas paulatinamente; cuidado com os excessos". Sei... Na hora H, do seu namorado te colocando em cima da pia da cozinha, só uma dor excruciante e um pontinho a menos podem te fazer lembrar disso...

Como não rir, depois - bem depois, claro... -, ao lembrar que um dia disse para uma pessoa "muito branquinha" para tomar cuidado com o sol, que era muito perigoso... antes de descobrir, obviamente, que a pessoa era albina...

Como não rir ao lembrar do filho "Hobbit" do seu querido amor, dizendo, de manhã, ao pular na cama de vocês dois, depois de uma louca noite de sexo e álcool, que vocês fedem, que estão com bafo... Só resta rir... Depois de escovar os dentes, é claro...

Nossa, tem essa outra, impagável. Velhos amigos. Bebem demais. Terminam a noite juntos, sem pensar, sem lembrar. Daquelas noites que se finge que nada aconteceu. Aí, velho frequentador da casa, o cara tem de ouvir da mãe da garota que "ela é uma irresponsável, dia desses sumiu, nem para dar recado de que ia dormir fora; sim, porque eu não me incomodo que ela vá para motel, mas me avisa que não vai voltar". O amigo com a velha e notória cara de quem não tem nada com isso. Claro. E anos depois, vai rir e contar essa história para todo mundo.

O filho do seu digníssimo saiu para um passeio. Vocês não aguentam de tesão, um minuto sozinhos e já explode a coisa toda. Quando percebem, estão em cima da cama, feito animais no cio; sabe lá quanto tempo depois, a porta estremece, na maior batida. Levantam os dois se encontrando feito formigas em ataque ao formigueiro, abre a porta, é a camareira olhando para os rostos suados e nervosos, perguntando: "posso entrar?"; "sim, claro". Anos de profissão, ela repete: "posso mesmo?". Na hora, é só desespero. Depois, é só lembrar e rir, até porque, dia seguinte ela deixou as toalhas da piscina na mesa da varanda...

Você está em um mega evento governamental. Autoridades de Estado, do tipo "muito cacique para pouco índio". Tentando seguir sua linha, "passe despercebido", você segue para um daqueles coffee breaks que vão contra qualquer disciplina alimentar. Vai pegar um suco com uns pães de queijo - esse personagem aqui adora! - na mão e o copo na outra. Está diante de uma daquelas máquinas com tipo uma biquinha para abrir e preencher o copo com suco. Na hora que o copo enche, cadê que consegue fechar? Começa a transbordar no chão, molhando o tapete e, nervosa, a pessoa mexe mais freneticamente - e mais sem jeito - a tal da bica... Quando olha para o lado, uma bondosa alma se dispõe a ajudar. E fecha. E é o ministro... Só resta rir...depois de se esconder, é claro...

Bem sugestivo, uma mulher pergunta, por exemplo, em pleno intervalo do show do Planet Hemp, como colocar a ficha no aparelho telefônico, que ela não sabia. Já naquela época, fazia anos que nós só conhecíamos orelhão de cartão.... Mas, perdão, esse não é o melhor exemplo, porque a gente riu lá mesmo. E muito. E rimos até hoje...

É possível lembrar várias e várias situações "rolante-cômicas". Aquelas que, com o passar dos anos, viram os "clássicos", contados à exaustão, nas rodas de amigos. Nada como um dia após o outro. Portanto, o segredo é esperar. A risada está logo ali na esquina...

14.12.09

Estremeço....

...Estremeço, cheia de amor, pensando nos seus doces olhos, na linda promessa de cachoeiras e chopps domingos à tarde. É tão junto, tão delicioso estar com você que, sozinha, eu me sinto metade. Você é minha metade prudente. Você é minha metade calmaria. Você é minha metade família. Você é minha "metade-raízes".

Eu sinto falta de sua vida. Eu, "desapegada" do mundo, lembro de seu lindo filho querendo dormir comigo. E mexe no telefone. E quer a câmera. E quer o sorvete. E quer o chocolate. Com aqueles olhinhos espevitados, cheios de vida; quase uma síncope para se ter coragem de dizer não...

O não que é necessário dizer, na escolha de um bem maior, de um sentimento mais profundo. Que te arrasta. Que te leva para um redemoinho de sensações. Que te domestica em sonhos que você vive e quer viver com alguém. Você é tanto em mim, sem eu pedir, sem eu lutar; é só entrega, tudo junto e sacudido em meio a muita paixão, muita loucura, muito desejo.

A paciência que não tenho. E que tento aprender a cada dia, na esperança daquele sorriso tão espontâneo, daquela gargalhada tão nossa, daqueles beijos menos roubados, mais explodidos.

Você é minha metade silêncio. Você é minha metade adivinhação. Minha metade gestos e olhares. Eu sou sua metade instinto, impetuosidade. E são tantas metades que o sentimento só se multiplica... Não importa quantos “sim” possam existir, quando a resposta quer ser - e é - única, intransferível: metade sem você é só vazio, meu amor...

6.12.09

Sutilmente
Skank
Composição: Samuel Rosa / Nando Reis


E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti.

6.11.09

Se Tudo Pode Acontecer

Se Tudo Pode Acontecer
Arnaldo Antunes
Composição: Arnaldo Antunes


Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer. . .
Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer. . .

Recifes de saudade....


Eu já te disse???

Que é difícil ficar longe de vc...

Que é difícil não poder olhar todos os dias para o infinito dos seus olhos...

Que é difícil não sentir seu corpo, sedento, junto ao meu...

Que é difícil não sentir o compasso e o êxtase de sua respiração misturada a minha.....

Que é difícil não ver esse sorriso, ouvir essa risada e todos os sons da alegria que compartilhamos...

Que é difícil não caminhar de mãos dadas, não assistir ao sol se por ao seu lado...

Que é difícil não ter seu colo para me aconchegar, no cansaço, na saudade, no desejo...

Ainda assim, fácil te amar...

*Fotografia no Museu do Instituto Ricardo Brennand, conhecido como Castelo do Brennand

28.10.09

Ao lado de seu amor, o personagem é só uma menina apaixonada...

Não consigo parar de pensar em você. Penso nos seus olhos, procurando e fugindo dos meus. Lembro do toque suave de suas mãos, deslizando pelas minhas costas, segurando, com desejo, com paixão, o meu corpo junto ao seu.

Eu penso nos beijos, sem fim. Nossos corpos adormecidos de entrega, misturados, quase um, largados a sorte de um amor, naquele eterno momento sem reflexões.

Seu corpo, seu dorso, sua imponência, abandonada sob meus olhos, apaixonados, seguindo o seu caminhar, seu desfilar, inerte, desligado, olhos brilhando, sorriso no canto da boca.

Não consigo parar de pensar em você. Seus dedos procurando os meus, no gesto inconsciente, no toque de peles frêmitas. Nas mãos, entrelaçadas, na busca de almas que fogem entre si.

Seus lábios nos meus. No meu corpo. Sua língua. Corpos ardentes. O contorno de um só corpo, em um abraço, na eternidade de um instante.

Ai, meu amor, não consigo parar de pensar em você. Fique assim, junto a mim, para sempre. Não me deixe ir... Quero me perder com você. Quero me perder em você. Mas não quero que nos percamos...

20.10.09

Obrigada

Obrigada por todo amor que tenho.
Obrigada por mais alguns anos de vida.
Obrigada pelas pessoas especiais que me rodeiam e pelos presentes que nascem, multiplicando amor...

Obrigada por me trazer à realidade de que tudo é fugaz. Só o amor fica.

Obrigada, obrigada, obrigada.

Amor aos que não vejo, não ouço e não entendo. Principalmente.

Amor aos que quero, preciso ver, sem entender isso.

Amor aos que vejo, não entendo, mas quero entender.

Amor, amor, amor. Só pode gerar amor.

E obrigada. Que cada segundo de insônia - e sobriedade - seja um pensamento de paz, carinho; sobretudo, paciência.

5.10.09

Disse que valeria a pena...

Ao subir as escadas, coração em disparada. Sorriso desconcertado no rosto. A porta abre, o cachorro late, a criança corre. Ainda mais tímida, Cris nem entrega o presente. O moleque, malandro, bonito, descabelado, cinco anos de travessuras, recebe, de presente, o copinho com desenho e o pacotinho de nozes, castanhas e amendoins adocicados. Olha para a mãe e diz: “ela pensa que eu sou criança”...

Cris tem vontade de rir, mas não sabe se deve; ah, essas teorias de educação infantis... Apaixona pelo projeto de gente do seu Amor e sua espontaneidade. Seu Amor ri também, desconcertado: “desculpe, ele é tão espontâneo, que me deixa sem graça”.

Logo se vê, sozinha, quase enterrada no sofá da sala, procurando algum estratégico “buraco de avestruz”. O moleque lindo e seus pontos de cirurgia correndo, nem aí, pela casa. Ex-mulher, sogra, cunhado, cachorro... faltava o papagaio e tudo mais... E Cris procurava, quase em desespero, pelo seu Amor. Quem diria, ela, logo ela, estaria ali, sem reclamar, no meio de um núcleo familiar, até gostando de conhecer esse pedaço da vida de seu Amor.

Perguntas, perguntas, perguntas. Cris falando com “desconhecidos” que não eram desconhecidos. Eram amores de seu Amor. Ai, ai, ai, my God, a coisa certa... Onde trabalha, você é jornalista, “o que tem de bom na profissão”...ai, ai, ai... A vontade de rir era quase patética.

A ex-mulher do seu Amor senta para conversar. Pacote de nozes, amendoins e castanhas na mão, comendo. “Quer?”. "Ai,que vontade de rir"... O projeto de cachorro pula no colo de Cris, depois de decidir parar de latir para ela. “Ai, fica aqui”, pensa ela, apertando o cachorro e lembrando da brincadeira com os amigos de trabalho: “senta aqui, não tenha tanta pressa, senta aqui”...

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Ela e seu Amor depois.... Ele ri, pergunta; ela, ainda, em estado de “apavoramento”. Ri e ri. Ri mais ainda. Eles lembram as cenas e riem, cúmplices. Ela se joga no colo dele, sente os dedos longos, a mão forte, percorrendo seu rosto e mexendo nos seus cabelos e pensa: “Deus não disse que amar era fácil, disse que valeria a pena”...

29.9.09

Não adianta....

Não adianta. A memória vai fundo no esverdeado dos seus olhos, na dúvida estampada no seu rosto, no corpo, solto, tímido, amando e sendo amado. No toque rente de seus dedos, deslizando, carinhosamente, pelo meu corpo entregue. Suas mãos fortes, puxando meu rosto, roubando um beijo que já era dado. Seu corpo grande, belo, esguio, seu contorno, na janela, na luz de sonhos que ainda estão – talvez - por vir. Esse sorriso que escapa, tímido, e vem para mim sem resistir, no segundo antes de pensar e temer. Não adianta. Eu me lembro do seu cheiro, seu gosto. Não é mais uma memória ou sonho, é real. É paixão, é loucura. É seriedade no reflexo e no medo dos seus olhos. É passado e é futuro no silêncio do que você não declara.

Não adianta, eu quase vejo seu rosto iluminado de espontaneidade, antes do pensamento, antes da prudência, antes do cuidado. Eu quase ouço sua risada feliz, seu sorriso, no segundo que antecede a ruga na testa e a realidade para aterrorizar. Eu me lembro dos movimentos tímidos e frenéticos, alternadamente, no compasso da paixão, ainda que fugaz, instantânea. Naquele segundo que brilha, no agora não imaginado, aquele, aquele, aquele gozo.


“A vida ardia sem explicação.... não tem explicação, explicação.....”
Segundo Sol, Nando Reis, mas prefiro na voz da Cássia Eller......

23.9.09

Cuidado.....

Cuidado demais impede os caminhos. Incerteza protege de vida, de êxtase, da liberdade de sentir. Ela pensava naquele sorriso e ficava assim, inerte, desejo congelado em memória ausente de vida.

Sem fome, sem sono, rindo pelos cantos. Olhava para a tela do computador e via a imagem refletida, mexendo nos cabelos, sorrindo a timidez que a encantava. Ui, ui, no carro, enfrentava o engarrafamento, pensando nos beijos, nos abraços, enredar-se no corpo dele, perder-se em carinhos. Ia cantarolando todas as frases de amor que explodiam dentro dela. Sorriso estampado na alma, olhar fixo; seu rosto, seu olhar, seus lábios. Fechava os olhos e simplesmente viajava. Não havia mais tempo, distância, só o instante feliz. Frases ecoavam, procurava os gostos dele só para agradá-lo, mimá-lo e enchê-lo de carinho......

Desde os mais primórdios, “o que fazer” (e o que não fazer...) deve ter assombrado a humanidade que tenta ser humana. Justa. Fiel à polissemia de atitudes em discursos existentes ou não.

Relação é fato, é lista de coisas, dependência, ligação, conhecimento, amizade, trato, envolvimento sexual... uma série de coisas. Se não há nada disso, em tese, não há relação. Mas se há sentimento sem ligação, sem dependência, sem conexão, sem lista, sem sexo, sem trato, querendo ter tudo isso junto, ao mesmo tempo, ontem??? Uma relação, talvez. Mas, para isso, são necessários, dois corpos ardentes, duas mentes sonhadoras no mesmo momento, planos para vir, sem ausência, sem silêncio, maldito carrasco de sentimentos......... Onde está você agora que não aqui, dentro de mim????

15.9.09

Personagens não sabem o que pedem

Todos os dias, Layla lembrava da solidão. Levantava de manhã, cantando, sorrindo, na esperança que o dia a surpreendesse com um amor de "verdade". Cortava os cabelos, dançava, ensaiava os melhores sorrisos. E era, naturalmente, envolvente. Por onde passava, era um rastro de olhares, não vistos, não percebidos pela sonhadora.

Espalhava aos quatros cantos a busca pela metade, pela parte do encaixe, pelo outro lado da cama, para dormir, abraçado, grudado, amor à flor da pele. Assistia aos filmes na televisão, torcia pelos casais da novela e pensava, sofria, 'quando iria encontrar esse novo amor, sumido, distante, que a deixava na solidão'?

Um belo dia, encontrou um rapaz, mais novo, mas bastante obstinado. Ele se encantou, de cara, com a força daquele olhar, com a voracidade das palavras que o devoravam, mesmo quando não ditas. Ele se encantou com o ar desligado da moça, na flor da idade do século XXI. Ele se encantou com o sorriso, de lado, meio que escondendo toda sua força. Ele se encantou com a energia, pronta para ser sugada, dividida, explodida em amor.

Pensativa, cheia de vigor, ela não o via. Continuava, indiferente. Era impossível que ela não o percebesse. Ele, ali, entregue, apaixonado, doido para preencher os espaços vazios. Doido para se redimir do passado e se entregar, de vez. Pronto para o tal amor de verdade, sem problemas, sem poréns. Sem dramas. Ele estava ali, nunca tão consciente de si mesmo, nunca tão aberto, nunca tão flagrante, nunca tão sem juízo, sem cuidado, sem passado. O nunca do presente; sem igual...

Pediu, chamou, disse com todas as letras que queria escrever. De amor, de paz, de construção. Mas só ficou o vazio. O silêncio. E, então, ele se lembrou do passado, da dor, do desamor. Lá se foi, sem olhar para trás; deixando apenas as palavras abandonadas de promessa. Layla voltou para o ex-marido.

7.9.09

Fragmentos

Apenas alguns fragmentos na estranha lógica de um personagem....

Festas de final de semana. Bailes; essa palavra ainda existe? Brincadeiras no sítio. Corridas, piques, gatos sumindo.... carnaval no clube. Sorveteria em Black Point....primos, amigos, linda infância. Sambinha na Federal. Black Night. Universidade do Chopp. Segóvia?!?!?! Matinê da NY. Pranchas de desenho e auto-cad.... Luaus em copa: SESC!!! Oficina do Samba em VP... Excentric!!! Churrascos em Bangu. Bunker!!! Farras, da Praça Quinze até a Happy Hour do Rio Centro com "the lawyer"... Computadores em Botafogo, diretamente para IACS. Fundição. Saudosa Lapa, pé-sujo com sinuca. Rastros e caminhos. Choppadas. Amigos de faculdade. Churrascos na Tá com televisões voando e chá de sumiço. Cuquinha sacudindo na Grajaú-Jpa. Deitar na mesa de trabalho, tarde da noite.... Ai, meu lindo Rio e saudosa Nickity. Danças na chuva. Conversas até de manhã. Cachorro para passear. Bar de doidões. Sapatos perdidos. Ônibus com entrada diferente. Jantares em Pinheiros. Pimentas na Lapa. Sesc Pompéia. Com tênis, homem não entra na disco.... E Matrix!!! O Bexiga, ai, ai, ai. Alguma coisa acontece no meu coração... Castelinho da Fio, roxo de novidade. Festas juninas. Garoto manteiga, que saudade! E o moço do pé calçado, o outro sem meia. Aninha, aprendi a dizer não...às vezes....risadas com Babs, conversas com Mano e muita festa com sr e sra V Rocha. Container!!!Rastros de novo. Com botas e tombos em pontes. Ônibus de dois andares. Uísque com red bull. Drinks vermelhos. Gongos batendo, pubs fechando. Albergues e casinha de porta amarela na estrada da memória...sem fim..... saudade de Rick milk shake..... Recreio lindo. Praia da Macumba. Grumari. Ai, que pôr do sol. Deitada na pedra. Restaurantes, caronas de moto. Carro quase caindo na reserva. E o saudoso Kananga do Hilos, era assim que escrevia? Quem nunca comeu carne de côco, come cinco, olhando a praia... dedos do pé, apaixonados, brincando na areia. Cabaninhas; oh, malandragem, dá um tempo.... pousadas, escadas, tantas fases.... Eu lembro do onze de perdido.... das festas insanas, das pipocas sacanas... Mezcal no instante, botas intermitentes, festas com fadas azuis na loucura de "promover a paz mundial"... na varanda, seu olho azul. Castanho. Verde kriptonita..... Branco, moreno. Cabelos lisos. Escuros. Tudo permeado por carteiras perdidas, garrafas vazias e cigarros.... amigos caídos ali, mas já não era na "p de praia de maricá".... não, Danizinha, não beba mais. Não, Danizinha, não esqueça mais... Prédio alto. Segurança para entrar. Francês, charmoso, ao pé do ouvido. Aussie, aussie, aussie. Cangurus, pernas e liberdade. Coalas e lindos gambás. Barracas, amigos, amigos, amigos; melting pot.... salsa sexta-feira. Valley. Fringe bar.....The Victory, dear M. A casa das festas....one more try, dear Joe. Acomodação mil estrelas. Aconchegos no carro. Coração aportando em Saint Lucia. Às vezes, saudades.... my babies....Copacabana essa semana, princesinha do mar..... varandas... rodízio de japonês. Todo dia, uma festa, uma visita, um país; algum eu. Paraty, mais uma vez, logo ali. Na carona da lembrança, dos amigos. E lembra do Incrível Hulk, passaporte para Austrália... Muda de elevador, muda de estado, mais uma vez. Brasília, tempo de seca, tempo de viver, mudar, voltar a ser sério para variar.....para então ser louco e lembrar cada fragmento que nos leva em frente, Mana, para, de novo, mudar.............. Ainda bem.

28.8.09

Paixão....

Quase sempre de braços abertos e sorriso largo, como em um mergulho para a vida... Cheia de expectativas, é movida à paixão, à novidade, a prazeres; por vezes, efêmeros, por vezes eternos na memória. Do nada, sem explicações, é como uma criança com um novo brinquedo. Assim aprende os segredos de uma nova profissão, de um novo trabalho, de um novo amor, de uma nova cultura.

Vai mudando, vai vivendo, vai achando o que, de comum, há no mundo. Vai aprendendo, vai sofrendo com diferenças, vai apanhando por confiar, vai seguindo, feliz, a trilha de quem nunca está no mesmo lugar, nem mesmo parado.

Com a memória maleável, para trazer as doces lembranças e perdoar as agruras do mundo. Dolorida de aprendizado, muitas vezes. Com fases de hibernação, de transformação, ou incorporação. Momentos necessários para absorção de tantos outros eus, tantas mudanças, tantos referenciais perdidos.....

Ao olhar para trás, só agradece. Mesmo que perca os caminhos, que apague os passos, que veja o mundo abrir a sua frente, desesperador convite em um leque de oportunidades....a serem escolhidas....Corpo e alma mutável, na cadência errante de existência inquieta.

Ela também se redescobre, sóbria. Aprecia a própria timidez. Quase menina, sem experiência, voz baixa que, sem perceber, às vezes solta uma piada. Menina enrolada, trocando palavras, mediante pessoas desconhecidas. Mas abaixa os olhos fugidios e sorri, de qualquer maneira, abraçando ao mundo, esse aterrorizante desconhecido em pessoas.....

Pessoas de quem depende. Metafórica e literalmente. Um dia para dizer que, também, é necessário estender a mão e simplesmente pedir ajuda. Ser humilde para pedir, para "perturbar" e até para aceitar o "não", pois ninguém sabe o prejuízo da alma livre, ao depender; mesmo assim, outros não sendo obrigados a ajudar.

De peito aberto, ama o novo, ama o desconhecido, ama até os cabelos claros, os novos olhos e ama a imaginação, ama a experiência, ama o depender de um novo alguém, ama o respirar imaginado, o gosto compartilhado, ama o mundo de novidades, ama o amor, ama, até mesmo, o efêmero estar apaixonado. É a vida, todos os dias. O ar que se respira em novidade. Um outro alguém em você. Quando muda, ou quando se redescobre em alguém. Com alguém. Para alguém. E, enfim, sendo novo para outrem.

22.8.09

Doente de rotina: já vem um novo amor....

Piores que qualquer restrição física são os arreios na alma. Quando limitamos nossa existência a uma simples verdade, a um horário forjado e reforçado na história da industrialização, a estruturas políticas e sociais que ajudam a organizar nosso bagunçado instinto.

Todos os dias, nossas vidas são invadidas por doentes de cotidiano que brigam pela última vaga no estacionamento, que xingam no sinal, que maximizam as nêuras dos atos repetidos e que explodem em idiossincrasias políticas, de vaidade.

Oh, no, Lord...
Dê força para os que se levantam, no motim de sentimentos, para proferir palavras rudes e agressivas, sustentar suas imagens, com as quais se preocupam tanto, parecem defender a própria vida.... Para que reflitam...

Os anos passam, as rugas chegam, o corpo falha, as cidades mudam; as experiências explodem. Com sorte. Mais sorte ainda os que têm a habilidade e o privilégio de manter a memória viva: os preciosos amigos. Mas há os que arrastam a personalidade, incapazes de mudar a vírgula de lugar, porque "assim tem de ser", porque "assim eu disse que seria", porque "assim é a minha vida". Não que se deva condenar, porém, difícil compreender quem se acostuma com o ruim, quem se acomoda no mais ou menos, quem se resigna a uma existência mais submissa, quase nula.

Cada céu é um horizonte. Cada pôr-do-sol é uma mensagem de um milagre. Da vida, tudo tão lindo que nos cerca, da Natureza, pronta para evoluir, para vencer as situações desafiadoras, para ultrapassar qualquer limite. Inexplicável, mutável, admirável. Ao olhar as ondas do mar, não há cotidiano, mesmo que sejam ondas.... Há volumes, cores, velocidades, tudo diferente, em um conjunto e contexto diferente. A Natureza não se permite estagnação. Há destruição, terremoto, mas há muita energia e as placas tectônicas se acomodam... Chove sem parar e que linda a atmosfera, que “voluptuosos” os rios, os mares, as nascentes, quase de pura vida...

Há tanta poesia ao redor que o cotidiano não deveria ser tão maçante, destruidor. Em frente a nossas máquinas, com desktops de realidade, nos mundos paralelos que desculpam nossa existência de regras sem sentido, perdemos a noção.... O todo é para sustentar algo que não se sabe, não se pensa, nem se quer ou não; só é, só existe. Os intuitos se perdem em caminhos tortuosos, em labirintos que, novamente, auto-justificam todas as loucas lógicas que se cruzam, que se batem, que se ignoram, em verdades de culturas diferentes.

Não, não. Esse personagem é quase, mas não é anarquista. Ele admira a beleza do mesmo amor, ele entende a facilidade da estrutura, contudo, menospreza o automático, a perda dos próprios propósitos. Insiste que, no erro, na mudança, no diferente, é que os seres são confrontados com mil questionamentos para mudar, para melhorar, para exercer a liberdade de escolher. Se é tudo assim mesmo, não há escolha, não há vida, há repetição, há acomodação. Esse personagem sabe admirar a escolha já feita, a felicidade já acomodada, mas que, sempre, sempre, pode ser mudada, aperfeiçoada, salvo em criaturas aprisionadas em si mesmas, sem alma, sem personalidade, sem “existência real”, sem um amor que os mova na direção dos ideais, naquele instante de gozo que vale a vida inteira!

Romântico demais talvez. Crédulo exagerado talvez. Antes o virtuosismo otimista que o rancoroso eu, ego inflado e inflamado em escancarado egoísmo. Sem religião, cheio de amor, o personagem ainda pede perdão, "eles não sabem o que fazem...”. Nem pelo que fazem, tampouco como fazer.... Oh, humanidade perdida em conceitos, preconceitos e vaidades.... Vergonha as nossas, personagens, fazer o quê, simples e boçais humanos.....

17.8.09

Adeus

Um rosto que deforma a memória.
Envelhecido. Doído de passado.

Um rosto que engana.
Esconde o passado de amor...

Um gosto de "extremismo".
Um quê de resolução.

Um gosto de punição.
Perdendo, nós e nós....

Uma visão de passado.
Um resquíco de dor.

Uma visão de futuro.
Uma ausência total.

Uma palavra de basta.
Mais uma fuga.

Uma palavra não proferida.
Mais um adeus.

11.8.09

Memória...

Memória; entre os mistérios inerentes ao corpo humano, algo fascinante. Uma música, uma simples música pode te remeter a outro país, quase como uma viagem ao passado. Uma música pode trazer o corpo de outro alguém, pode trazer o cheiro, o gosto, quase a experiência de reviver um amor.

Como em cadeia, um elo de emoções, as memórias flutuam, sem convite, sem ordem lógica, trazendo, de volta à vida, uma série de acontecimentos passados que a pessoa nem julgava lembrar. Um almoço, uma festa, um delicado momento a dois perdido no tempo.

Serão todas as memórias "eufemistas"? Vêm momentos felizes, momentos únicos, momentos prontos para serem lembrados. Não importam todos os estranhos contextos nos quais eles estiveram inseridos, a memória apaga e traz aquela peça do quebra-cabeça com a foto mais bonita, mais intrigante.

Interessante que, ao olhar para trás, seja possível lembrar um episódio adolescente, de um grupo de amigos, pulando a cerca, literalmente, para assistir a um show. E de quem era o show? Ninguém faz a menor ideia. Exemplo clássico de como opera a memória. Perfunctórias fases da vida explodem significado, quando aliadas a uma pessoa, a um lugar, a uma personalidade específica.

Difícil dizer quais meandros da realidade ficam impressos por meio dessa temperamental escritora-memória, que arranca algumas páginas, liberando espaço para uma existência feliz, por vezes, repleta dos mesmos erros atirados ao vento.

É como uma chuva fina, insistente, que acompanha, que transborda emoções, esfria o corpo e aquece a alma, às vezes mais forte, muitas vezes sutil, num fenônemo que pode ser belo, quase poético, quando conjugado com nuvens e idílicos cenários imaginados, ou pode ser uma torrencial tempestade de questionamentos e reconstrução pessoal.

Pode ser a chuva fina na varanda de um hotel, café da manhã romântico esperando, pode ser a viagem turística, o atoleiro na lama, pode ser a corrida no meio da tempestade, cantando aos berros qualquer música simbólica, ou mesmo a reflexão, em frente ao computador, com os olhos voando pela janela, na carona de um espírito livre que já voou e se perdeu muito. Ainda bem...

"Não tenho mais nada senão meu passado. Mas ele não é mais nem felicidade nem orgulho: é um enigma, uma angústia. Queria arrancar sua verdade. Mas pode-se fiar na própria memória? Eu esqueci muito, e parece que às vezes, mesmo, eu reformo os fatos".*

A mulher desiludida, Simone de Beauvoir*

6.8.09

(Don't) Get loose

O paciente chega. Já está cansado de médicos, de curativos, de letargia existencial. Quer, claro, o que não pode ter: rodadas de chopp, trilhas no meio de paradisíacos locais desconhecidos do resto do mundo, dança na chuva, baderna recheada de amigos, noites de salsa às sextas-feiras, quadras de tênis e bolas indo para lugar nenhum, sambinha gostoso de sábado, chorinho ao pé do ouvido, noitadas na Lapa... Paciência não é o seu nome!

Lê um livro, refúgio e acalento para uma existência sem prazeres e êxtases de movimento. Tenta se desligar dos papos sobre doença, sobre curativos, tudo que quer esquecer. Saramago o distrai. Nem ouve mais a torrencial chuva que cai sobre o lindo Rio de Janeiro. Sua vez, finalmente.

O médico, com um largo sorrigo, pede para ele deitar. O irmão, parceiro, acompanha. Já consegue deitar sozinho. Nervoso, talvez, não pára de falar.

O médico faz perguntas, olha o curativo, faz observações que o paciente vai, provavelmente, esquecer. Devia andar com um bloco, anotando tudo que as pessoas falam, mal da profissão....

Antes de tirar os pontos, o médico abaixa para abrir o armário. De repente, o paciente só sente a tesoura voando na sua perna. "Bom para distrair", pensa o personagem-paciente, não muito afeito a procedimentos ligados ao juramento de Hipócrates, pelo menos fora da teoria....

O médico fala, fala e ele também, responde, provavelmente falando sobre coisas que nada tem a ver com a situação: o médico deve achar que ele é louco. "Isso mesmo, continua falando, assim não presto atenção no que você está fazendo", pede o paciente. "Mas tirar os pontos não dói, dá só um nervoso", retruca o médico.

Ele olha o teto, deu para isso agora.... "Toda o dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito"...."Agora vamos embora, estamos, meu bem, por um triz para o dia nascer feliz, o mundo acordar e a gente dormir".....

É, não doeu mesmo. Ainda olhando o teto, deitado, conversa. Vai se mudar e o médico, provavelmente apavorado, achando que o paciente louco vai fazer a mudança ele mesmo. Não, não, o irmão vai junto. "Onde andará aquele número de mudança", pensa ele. "12a casa em três anos e meio, sosseguei um pouco", brinca consigo mesmo.

"Me dê de presente o teu bis, pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordar e a gente dormir"..... Num rompante, distraído, pensando nos eventos do trabalho, nos amigos, levanta-se rapidamente e sente o incômodo. Quase se esquece o porquê de estar ali, o que acabou de fazer. "É estranho ficar conversando deitado", afirma.

Posso, não posso, posso, não posso, pergunta o paciente, repetindo as respostas do médico mentalmente. Ele se sente o garotinho aprendendo a ver horas: "mas por que não posso olhar no relógio digital?"..... Não pode fazer exercício, nada de impacto, não pode, não pode.... Verdade que ele nunca gostou da palavra não...

Mas ele já não é um garotinho, "comporte-se como um adulto", pensa ele, "pare de choramingar porque não pode fazer trilha, dançar e encher a cara com os amigos em loucas festas que terminam com o nascer do sol", radicaliza consigo mesmo...

--------------

No carro, o irmão brinca: "olha, se eu não conhecesse o médico, se a cirurgia não tivesse feita, eu iria ficar preocupado. Ele virou para o lado, tacou a cabeça na luz. Abaixou para abrir o armário e tacou a cabeça nele. Quando subiu, deixou voar a tesoura. Quase achei que ele não estava enxergando! Se fosse antes da cirurgia, era capaz de te tirar dali"..... Família de gozadores, mas que, em seguida, elogiam o profissionalismo e detalhismo do médico.

Saber esperar, paciência, meio termo, virtudes e/ou necessidades na vida desse personagem-paciente-exagerado.

"Let's start all over again................This is saturday night, get loose.....My baby just cares for me"....

1.8.09

Alice retorna ao país das maravilhas

Fabi, querida, resolvi te escrever. Hoje, finalmente, eu me enchi da coragem que precisava. Abri os armários, retirei tudo que ainda restava dele. Calças velhas, jeans tão surrados como andava a nossa relação. Peguei as camisas, as cuecas sem charme e até a havaiana que ele adorava e taquei tudo em um saco, desses de supermercado mesmo, sabe? Meio simbólico tirar aquela tralha, sem uso, do meu armário. Como dizem, para abrir espaço! Mandei entregar no escritório dele, assim, nem precisava me dar ao trabalho de encontrá-lo. A escova de dentes, sei lá, parece ainda mais simbólico; joguei no lixo. Foi como me desvencilhar daquela boca, colocando-a no passado.

À parte disso, ando trabalhando muito, faz tempo que não me sinto tão produtiva. Estou investindo em mim mesma, estou cheia de projetos e futuros clientes. Plantando as sementes dos futuros lucros, literalmente! Também dei uma aula experimental na faculdade e parece que vou ser contratada, então, estou concorrendo para a trabalhadora exemplar do ano (risos!).

No campo sentimental, menina, nem te conto! Meu irmão me apresentou um amigo, um cara super interessante, sabe conversar sobre qualquer assunto, fala mil idiomas, já morou fora, tem um monte de histórias. Bom, ele não é canhoto, mas tem mil outras qualidades... Está pensando em fazer pós-doutourado, acredita?! Trabalha aqui pertinho da minha casa. Bonito (corpo sarado, com uma tatuagem, colorida, ilustrando aquelas costas musculosas: ai, ai!), inteligente, gente boa, engraçado e ainda tem um labrador; sim, um labrador, cachorro que eu amo! Ah, se eu soubesse desse mundão aí afora, já teria saído da minha inércia sentimental há tempos!

Ai, amiga, queria escrever mais, só que acabo de receber um telefonema do amigo do "Encosto"... Aparentemente, ele está na cadeia; encheu a cara e foi pego bêbado, sem documento, dirigindo o carro. Ligou a cobrar para o amigo e quer que eu vá lá para pagar a fiança e buscá-lo... Ai, meu Deus, lá vou eu. Não é ex-namorado, é filho...

Estou indo para um congresso em Brasília, mas, juro, assim que conseguir ficar menos enrolada, vou aí em Sampa, para gente conversar, dar bastante risada e lembrar casos antigos. Quem sabe não levo o novo Gatinho comigo? Garanto que ele nunca foi preso!

Um grande abraço,

Alice

30.7.09

Outros...

Há personagens que te levam adiante. Tão admiráveis, abrem o mundo a sua frente, como uma esteira de oportunidades a viver. Fazem parecer tudo tão simples, tão livre, tão sem apego.

Outros, fazem doer a carne. O corpo adoece, a mente surta e te fazem mudar por meio de fuga. Se é para ser ausente, que seja de longe. De realmente longe.

Há personagens lindos, quase obsessivos de tão encucados com uma ideia fixa. No passado. De uma obstinação tão veemente, que beira à loucura.....

Outros, nem sabem da existência alheia. Aparecem, de forma intermitente, trazendo o brilho do passado, um errante presente, para o futuro sumiço.

Há personagens que simplesmente amam. São capazes de esquecer, de pular o trauma e, no fundo, estão sempre ali. Acabam, vez por outra, apegados a detalhes, remoídos de vazios, mas prontos para imensidão do amar contínuo.

Outros, nunca se expressam. Nunca se comprometem. Nunca saem da sua própria visão de mundo. São donos de sua própria verdade, própria história. De tão confusos, chafurdam e confundem todos ao redor....

Há personagens de passeio. Desde os que nada guardam, até os que guardam os segredos da própria moral. Dependem, mas não querem depender. Querem ser livres em desejos, mas escondem a realização dos próprios caprichos.

Outros, sofrem, sofrem e sofrem de novo. Mas escolhem acreditar. Escolhem prosseguir. Escolhem a crença de que há algo que não apodrece com o tempo. De que além de capas de egoísmo, de indecisões pueris, de irresponsabilidades tardias, ainda há GENTE.

Há personagens vampiros. Roubam sua energia, roubam sua crença, roubam a parte adulta que ainda acredita no amor, na magia, na surpresa, no inusitado. Muitos deles estão arraigados de passado....

Outros, estão sempre ali. Amigos, amores, amantes, amados, eles lembram o personagem de quem ele é. De quem ele foi. E da esperança do que ainda pode ser, quando em dúvida, quando amado, quando amando, quando amante.

Há personagens de todos os tipos. Difícil crer que somos muitos deles, misturados, à medida que encontramos personagens que despertam os outros. Os melhores e os piores.

E qual é o segredo DO PERSONAGEM HOJE, AGORA? A resposta não pode ser...outros.....

26.7.09

Acorde!

Assim como não olhamos o teto com goteiras e a vastidão de estrelas no céu, não pensamos em simples situações do cotidiano.

Já pensou no quanto de dignididade representa você andar sozinho, caminhar, comer, dirigir, ter seu direito de ir e vir? Mais simbólico ainda é o fato de ir ao banheiro.

Imagina que esteja com uma urgência danada para ir ao banheiro, mas precisa de alguém para te levantar, para te ajudar a arriar as calças e a sentar. Uma vez lá, você senta, faz o que deve fazer - não vou entrar em detalhes escatológicos...- mas tem de esperar alguém para sair do banheiro. Ou, pior, executar o ritual diário de excreção com alguém, impaciente, olhando para você.

Quer beber água e precisa de alguém para pegar, quer organizar suas finanças, mas cada um dos seus papéis está um lugar diferente; se tiver de fazê-lo, terá de pedir para alguém procurar por eles, tentando entender a sua lógica...

O segredo está em cada gesto simples que fazemos, mas que podemos fazer sozinhos. Há os que não levantam da cama. Para os que podem, que o façam literamente e também andem com suas vidas!

21.7.09

Doidos...

Da série coisas esquisitas para se pensar ou sentir, fazendo do ócio algo criativo. Alguma vez passou pela sua cabeça a dor - ou o mesmo o terror precedente - relacionada ao espirro em um recém-operado?

Devem ter os seres inteligentes, onipotentes, veementes em sua sabedoria de que, no primeiro espirro, os pontos não vão arrebentar... Como em um desenho animado, cada pontinho não vai se desfazer, em câmera lenta, culminando com a revolução dos órgãos voadores. Surreal? I know. Mas que dói, dói.....

A linguagem também é uma coisa interessantíssima. Imagina a cena de uma pessoa, ligeiramente desabilitada, sentada na poltrona de um hospital. Aí, chega a auxiliar, da auxiliar, da auxiliar, da auxiliar da enfermeira. Empurra a cadeira de rodas e diz: "prontinho, pode sentar, aqui está a sua cadeira". O que será que passa na cabeça da criatura? Que o paciente fará passos loucos, performáticos, ao contrário, tipo canguru, quiçá homenageando Michael Jackson, para poder sentar...

Outra, da série perguntas idiotas. O paciente está comendo, enrolado, com a mão esquerda. Alguém chega e pergunta o porquê dele não estar ajudando com a direita. E o ser fica na dúvida se o seu soro, bem seguro em sua mão direita, alcançou poderes de invisibilidade.

Mais uma, porque é irrestível... O paciente está sentado, quieto e calado, em frente à televisão, desligada. Alguém chega e pergunta o porquê dele não assistir à TV. Ele reflete e afirma que ainda não avançou nos poderes de teletransporte, para trazer o controle até as suas mãos.....

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Estou sem internet, mas, sem reclamações, tenho o velho notebook de guerra! Por isso, perdoem a lerdeza dos posts.

17.7.09

.....

Pisca os olhos e está em cima de uma maca. Nem sente mais o gosto amargo do tal remedinho que mandaram colocar embaixo da língua. Um enfermeiro gigante de um lado e uma moça do outro. O enfermeiro pergunta alguma coisa. Vai saber.

Ele ri. Pensa no interessante olhar sobre o teto. Afinal, ninguém anda olhando para cima. Lembra da fotógrafa da exposição do CCBB. Em um instante, parece uma criança, "acelera aí"... O enfermeiro, sério, responde que tem de ir devagar...

As luzes vão fazendo um retalho de faíscas, emendando umas nas outras, ao mesmo tempo que a realidade de fios aparentes já não parece tão assustadora. Aí entra no elevador e, caramba, nunca tinha pensado que os elevadores têm de ser grandes para caber a maca... Ou talvez já soubesse, talvez já tenha estudado isso. Vai saber...

Pisca os olhos e está dentro de um quarto, em cima da cama, o irmão olhando. Ué, já foi? Ele se mexe e sabe que sim, uma ligeira dor dá os sinais de boas-vindas. A mãe chega e é só imobilidade em cima da cama. Lembra da médica falando alguma coisa, segurando sua mão. A partir daí, é só um abre curativo daqui, muda soro dali, dá remédio, traz comida, acorda, dorme, acorda, dorme, acorda.

10.7.09

(im)Paciente

Já reparou que, muitas vezes, hospitais não têm cara de hospitais? Deve ter a ver com essa coisa da modernidade, de fachada... Ele passou três vezes diante do hospital antes de ler, em letras miúdas, o nome esclarecedor.

A hora, o nervoso, primeira cirurgia da maioridade literal e "não literal". Mas vá lá... Entra no hospital, dá o número do cartão de crédito e deixam ele plantado esperando. Ansiedade? Bobabem, que nada!

Começa a passar mal. Enquanto o irmão estaciona o carro, ele agoniza a espera. Pacientes passando, cadeira de rodas, médica descabelada. Sete da matina. Nada animador.

Corre para o banheiro, passando mal. Olha cada canto do hospital, lembrando histórias de infecção hospitalar, negligência..."foco, vamos lá, se é para fazer, foco".

Volta à entrada, encontra o irmão, já sentado. Um jovem passa com dois sacos cheios de pão. Quentinho. Bobabem, ele só está sem comer há oito horas depois de passar um longo dia comendo canja... Ai, ai.

A luz pisca, uma, duas, três vezes e cai. Fica uma sala acesa: "pelo menos tem gerador", contemporiza o irmão.

A médica chega. Uma face conhecida, graças a Deus. Aliviado, ele levanta e - de forma desconcertada - dá dois beijos na médica. "Você já sabe qual o quarto?", pergunta a médica. 416, ele responde, ou a moça da portaria. Vai saber...

A médica diz que vai esperá-lo no quarto e ele só murmura que ainda está esperando. Na dinâmica não muito dinãmica, chega a enfermeira para levá-lo.

Os corredores do hospital, enquanto é levado, continuam "animadores". Vai vendo a fiação, a conservação. "Eu confio na médica, eu confio na médica", repete mentalmente.

Entra no quarto. "É você o paciente?". Ele olha e responde sim com a cabeça, querendo, quase, fugir. Ai, ai. A anestesista olha os exames, faz algumas perguntas; "que remédio você estava tomando?".

Ele responde que não faz ideia, que só tomou porque estava com uma potencial infecção, mas que há novos exames e que, aliás, ele nunca toma remédio, ele não gosta de ir ao médico, não gosta de hospital... Logo tem de vestir a roupa - aquela da bunda de fora -, fazer isso e aquilo, responder isso e aquilo. Bendita seja a anestesista que já deu logo um "sossega leão" para ele...

2.7.09

"É o que não se pode ver sem o requinte da tristeza..."

Uma estranha névoa ao redor. O friozinho arde no rosto, cheirando à manhã. Orvalho escorrendo pelas janelas do carro, turva é a sujeira dos amanheceres intermitentes....

A brisa corre, arrepio de cheiro, de memória, de novidade. A névoa acompanha. É possível ver, mas os sonhos de nuvens seguem, acompanham o carro, como um tapete de algodões....

Inebriante o ar. É azul, piscina, diferente. Quase confunde o sinal, a pista, o caminho.

De novo. Branco, branco, branco. Que parece neve. Um branco seco. Folhas de esperança, um olhar diferente, mais, para ser visto............. O que é isso, o que é isso, o que é isso? Revira os olhos, curiosidade à flor da pele.

Dançando, no céu rente, as nuvens pintadas, conjugando o branco do verbo vi(m)ver. Lá na esquina, o carro, de portas abertas. Pescoço esticado. Afoito e caloroso olhar e... pingos... Do branco ao arco-íris de derretida bruma..........

25.6.09

Quando???

Quando sozinho
Corre para o passado

Quando aprisionado
Respira futuro

Quando cheio de saudade
Quer respirar novidade

Quando confuso
Repete o ciclo

Quando recomeça
Não sabe mais a partida

Quando fecha os olhos
Nostalgia do passado

Quando feliz, cotidiano e presente
É a surpresa do novo futuro

Quando?????

18.6.09

Yesterday...

"Por favor, não vá ainda, me espera anoitecer...." Zélia Duncan

Personagem que achava que a poesia era ele. Eram eles dois. Juntos.
Na cadência da paixão, da loucura, da inconsequência de segundos que pareciam versos.

Ele achava que o céu era mais azul, que as palavras eram mais doces.
Que a água tinha sabor e que a vida era só sede....

Ele achava que a vida era uma rima com seu outro eu, calado, quieto, quase recluso.
Ele achava que a vida era literatura. Que o sonho era possível.

Ele achava que, como um milagre, o amor faria o mar de distância virar deserto.

Só que os versos continuam sem ele. Sem amor. Sem paixão. Só história.
Só que ele continua em outras rimas, outros climas, outras dores.

Os caminhos, esses sim, divididos..... Mas não se vá.... fica aqui, agarrado, nessa memória tão viva, tão perfeita. Valor. Passado. Amor. Presente.

" Baby, honey Baby.... Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu tô indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto
Mas eu quero esquecê-la, eu preciso
Oh, minha grande
Ah, minha pequena
Oh, minha grande obsessão"

13.6.09

Just the way you are...

Em qualquer fresta, o sol invade.
E, de repente, é como um céu

Todo um borrão, inusitado, inesperado...

É o telefone que toca .
É a mensagem que brilha.
É o contexto que lembra...

O coração palpita no ritmo de raios de luz...

É a voz que ecoa, como reflexos de espontâneos sorrisos...
É a música de vida a cada instante...

Que traz o máximo no segundo não previsto....
Não preservado, não preterido...
Somente vivido...

"I need to know that you will always be
The same old someone that I knew
What will it take till you believe in me
The way that I believe in you"

Just the way you are, Billy Joel/Diana Krall

9.6.09

Amor platônico...

Como um delicioso aperitivo, o outro "desconhecido" aparece.
Ao ouvir a pergunta, reconhece a voz... os olhos, fugidios, correm o outro corpo de baixo para cima.

Responde, desconcertada, como criança fazendo arte.

E levanta. Tenta disfarçar. Vira as costas. Tenta se refazer.

Ela se despede e o outro sorri. Inocentemente. Ignora o leve rubor na face dela.

Volta ao computador. Ela é só sorrisos inertes.

------ // -----------------

Passado o momentâneo delírio apaixonado pueril, volta à realidade: pagar as contas.

Vai "pulando" e cantarolando pelos corredores. Abre a porta do hall. Corre para a porta do elevador aberta.

Alguém vem vindo, segura o elevador. Quando olha de novo, o outro "desconhecido" está junto.

Enterra o sorriso no olhar, cabisbaixa. Ouve a conversa e quer sumir do elevador. Oito andares em rumo ao desespero.

Porta. E finalmente abre... Caminha.... Pagar a conta, pagar a conta, pagar a conta....

E, por favor, pensou ela, "não olhe para trás".....

Ah, esses sorrisos....

3.6.09

Não, não vou me perder

Não, não vou te perder.
Não vou me trair.
Não vou te ligar.
E não vou mentir.

Não fico e não quero ver.
Nesse seus lindos lábios , fica a noite, o sonho.

No toque do telefone. A realidade. O replay sem saudade.

Não, não vou te seguir.
Não vou te pedir. Não vou te levar.
Ao insistir, eu olho, eu vou...

Só um adeus pode gravar.

Seus lindos lábios na memória.
Seu gosto no desejo.
Sua promessa no ontem.

Não, não vou me perder.
Não vou te trair.
Não vou me ligar a você.
E vou partir.

31.5.09

Personagem....

Que não gosta de levantar bandeiras. Que não quer se esconder em grupo de opinião. De ninguém. Que quer o direito de mudar a todo instante. Que quer que a palavra não seja uma sentença. Que o momento não seja nem ópio, nem morfina.

Que a dor veja num círculo vicioso de prazer. Que o sorriso seja aliado da tristeza, no remexer de instantes que se completam. Que as músicas toquem. Iguais. Diferentes. Mas que existam, cada uma a sua beleza.

"Because this is what I wanna do....."

Com saudade do branco que pode ser tudo. Que é paz. Que é reflexo total. Que é controle de imagem. Que é palco para sombra. Que é oposto de todo um imaginário roubado... preenchimento de céu em fofas ilusões de momento.....

Repetitivo, mas essa é a verdadeira forma de encontrar um personagem que já foi real em toda sua confusão.

Porque, em nenhum instante, esse personagem vai se trair...

"Não, não vou te trair"...

28.5.09

A saúde não começa em casa, mas a pressão está boa...

Ele chega ao trabalho sentindo um leve incômodo no pé direito. Logo se lembra de um copo quebrado no dia anterior que, achou, não tinha causado mais infortúnios. Como tem todo o dia pela frente e está sem cartão do plano de saúde, na hora do almoço, resolve ir, pela primeira vez,ao Posto de Atendimento do organismo de saúde, em Brasília, onde trabalha.

Chega, ainda no corredor, e pergunta onde pode ser atendido, afirmando que, talvez, tenha um caco de vidro no pé. Uma simpática senhora pede que ele se encaminhe ao atendimento, “depois da garrafa d´água”.

Ele entra, narra, novamente, a história do copo quebrado, do caco de vidro que talvez tenha ficado no pé dele etc. Uma senhora, calmamente, pergunta se tem ficha de atendimento. Responde que não. Ela pergunta se ele nunca foi atendido lá. “Só vacina”, responde ele. Ela o encaminha ao atendimento, de volta à entrada, para fazer ficha.

Lá vai ele, mancando. Balcão de atendimento: onde trabalha; qual o ramal; endereço; vínculo; qual a sigla de onde trabalha.... Responde.

É, então, encaminhado para a enfermagem, novamente. Ele senta, ela pede seu telefone, data de nascimento. Responde. Começa tirando a pressão dele; ótima. É então enviado para a médica, mais para frente no corredor. Ele chega lá!

Três trabalhadores para serem atendidos. Os dois entram, ele aguarda. A moça do atendimento pede para ele se manifestar, caso a médica termine de atender o paciente, porque ela vai almoçar. Tranquilo.

Daqui a pouco, sai o paciente e ele entra. A médica olha a ficha, recém-feita, pergunta o que ele está sentindo. Conta mais uma vez. Então, ela começa a procurar um livro “o código tem de ser preenchido corretamente”. “Vidro, né?”. “Pé direito, no dedo?”. Responde. Ela procura o tal código no livro. Ela rabisca o papel, carimba e diz que vai levá-lo para as enfermeiras porque não pode ajudar. Não olhou o pé dele.

Ele é levado de volta para a sala das enfermeiras. Elas cochicham alguma coisa, a enfermeira diz que também não pode ajudá-lo em nada, se ele não está vendo o vidro, ela também não pode ajudar: “não tenho lupa”. Médica e enfermeia discutem um pouco, amistosamente. Chegam à conclusão de que é melhor ele ir para o atendimento do plano de saúde dele, porque a emergência do plano poderá ajudar...

Enquanto elas ainda discutem, meia hora depois, ele agradece e diz que vai realmente procurar o plano de saúde. Ninguém olhou o pé dele. E ele achou melhor nem pedir, afinal, “elas não podiam ajudar mesmo”. Mas a pressão dele está boa!

19.5.09

Estranha ânsia...

Estranha ânsia do ser humano de amar e ser amado.
Tão difícil o compromisso com o gozo, porque ele passa e o exercício do momento seguinte é desafiador.

Personagem que quer correr além dos radares, que quer ser pessoal, quer ser espontâneo, mesmo remando contra a maré.

Para que flores se ali os falsos escondem os espinhos?
Melhor dores que exorcizam o sofrimento de não ser no segundo exato de si mesmo.

Estranha ânsia do ser humano de compreender.
De ver com o próprio olhar.
Quando ver um lado nada mais é do que cegueira para imensidão......

Personagem que cansa de ver, somente, o(s) outro(s) lados(s).
Não quer ver o lado, cansado, de quem vê o referido passado.
Os que mentem. Que sugam energia. Que parasitam a espontaneidade da vida.

Quer ver o náufrago eu, de tanta lamúria, tanta injúria.
Hipocrisia sem rima.....

Estranha subsistência de ver tudo...
Mas respirar acima da maré de suposições....
De respeitar o cansaço do repetido perdão.

Estranha ânsia de um personagem de se amar.
Mesmo amando ao mundo....

14.5.09

Perfeito

Solta as amarras para o deslize de dedos nervosos.
Ideias repetidas, frenéticas.

Solta o sonho que é tão bom.
Por vezes, já melhor que a promessa.....

Solta as amarras para o sentimento que vibra...
Paixão que estoura meses de inércia...
Amor próprio que diz enough......

Lá se foi você, meu carrasco, meu capacho.
É o meu perdão.

Dos outros olhos, vem a minha força.
É a possibilidade de descontrole.
É o medo da loucura.
É o gozo no olhar, no toque, no cheiro de loucura iminente.
A todo instante.

E eu nem preciso dizer.
Não quero. Não sei.
Não penso, logo vivo.....
E ardo nesse seu sorriso.
Perfeito.

9.5.09

Bilhetinho sem cor...

Deixei um bilhetinho.
A mais linda caligrafia.
Você existe, meu bem?

Todo quadradrinho o papel sem jeito.
Esmeiro na letra do tímido personagem.

Sem palavras para dizer o coração.
Sem coragem para escrever; amor.

Deixei um bilhetinho.
Vazio, sem cor.

Você exige, para o meu bem, meu maior amor?

Volto, mas não me engane.
Adresse meu perdido ao seu labor.

4.5.09

Cinza: bondade além...

Um personagem que volta a enxergar a bondade humana em pequenos gestos sem interesse. Um personagem que volta a achar lindo o "boa noite" da moça que trabalha - é explorada - onze horas por dia em um posto de gasolina, ainda ouvindo piadas machistas....

Bondade que puxa memória e lembra que, todos os dias, todos os personagens têm a chance de olhar o sol invadir, com vida, cada ser, "energia D" na pele, no suor do equilíbrio da vida, de cada gesto que faz alguém parar e lembrar que os segundos não são momentos consecutivos sem sentido algum......

Não que haja um sentido só. Uma verdade específica. Mas há um todo além do vazio da cegueira rancorosa, magoada, frustada e infeliz..... Too much para uma frase só. Para um louco e renascido personagem.

Como uma tela de tv. Desligada. Refletindo tudo que se pode fazer no além quatro paredes. E eu falo de orgasmos espirituais, eu falo de todas as possibilidades que o sonho oferece e de todas as chances de buscar....o que quer que seja.....

Um personagem que assiste a este espetáculo. Todos os dias. Em cada "bom dia", realmente amistoso, da vendedora de rua.

Personagem que quer ser prisma e voltar a exalar possibilidades por todas as direções. Personagem que quer arrancar de si o discurso monossêmico e dominador, sombra de passado arrastado em países, relações e memória.

Personagem que sabe que a sombra nem sempre é ruim, mas que é cópia inversa, mentirosa, em seu reflexo que aparece de forma intermitente, enganando os meandros da luz....Because the word is shade, not shadow......

29.4.09

Você e seu sorriso...

Você e seu sorriso vêm trair as certezas do não querer.
Você e suas ilusões vêm amarrar o controle ao infinito.
Você e sua ausência vêm com suplício e como salvação ...

Danação de promessa....

Você e suas próprias dores.
Tão cheias de cores aos meus olhos, atento personagem.

Dissimulo o arco-íris do seu corpo no meu torpor memória.

Fujo desse sorriso a cuidar de mim como tolo de pathos.
Diagnóstico de vida.

Você e tudo que agora não quero ser.
Não quero ter.
Não quero repetir.

Para não ver a dor de partir.
Coração e presença.

Mas já não há querer.
É um personagem em devaneios....

Você e seu sorriso vêm trair as certezas do não querer.....

24.4.09

In the middle of a good dream...

"Eu hoje represento a loucura
Mais o que você quiser
Tudo que você vê sair da boca
De uma grande mulher
Porém louca!
Eu hoje represento o segredo
Enrolado no papel
Como Luz del Fuego
Não tinha medo
Ela também foi pro céu, cedo!"

Luz del Fuego, maravilhosa canção na voz de Cássia Eller....


Um personagem acordando de um longo e tenebroso inverno..... A energia vem tão intensa que a mente arde, assustada, que toda a paixão se esvaia e exploda em um cometa de ilusões e expectativas aprisionadas.....

Só os delírios da paixão fazem do céu escuro, cheio de nuvens, uma cama de sonhos, recheados de uma tal liberdade, sem igual, que nem a rotina suprime.... a liberdade da escolha, da novidade em você mesmo, a liberdade de ser o caótico cotidiano por um momento, a liberdade de experimentar o além planejado, a liberdade de insistir na inconsciência consciente......

"Im not afraid to say...I've had my ups and downs....."*

Personagem com o coração vibrando forte na mesma sintonia da música alta, explodindo coração. Daqueles momentos-cometa. Sem letras, sem fala, sem grandes expectativas, só o mágico momento do sair do coma e olhar ao redor, olhar para o céu e....Gosh, o mundo está ali, lindo como sempre......Ninguém sabe como, ninguém viu......

Um personagem que não arde a falta de si mesmo. Que se reconhece e se multiplica no suspiro de saudade de cada amor. Cada amigo. Cada dor. Seu próprio umbigo verdadeiro.....

"Now, Im standing in the middle of a good dream....."*

* "Further down the road" - Bernard Fanning

6.8.08

Esse É o cara...

Esse cara me levava para tomar sorvete. Lembro dos passeios mais loucos. Provavelmente a primeira viagem de metrô, totalmente Baby, foi com ele. Ele era capaz de nos levar para passear na Barra, do nada, saindo de São Gonçalo.

Esse cara me deu o meu primeiro computador. Com ele, aprendi a amar o mundo eletrônico. Ele me deu as apostilas de DOS e tantos outros programas antigos que nem me lembro... Porque, afinal de contas, o "usuário" sempre traz o problema que o técnico não sabe resolver.... E aí, é tudo "lama"... Ele também me apresentou, anos depois, o maravilhoso Word, após uma longa tortura de Carta Certa....

Esse cara ouviu vários e vários desabafos infanto-juvenis, pré-adolescentes... Com uma risada gostosa, uma calma, uma praticidade invejável. E uma mentalidade de consciência e paz que só a maturidade poderia esclarecer.

Ele me mostrou cada carro que comprou. Cada novo computador, notebook, ou gadgets que ele conheceu. Ele me contou de viagens, quando eu ainda nem sonhava em ter dinheiro para viajar.

Ele subverteu a lógica militar em minha casa, ao se tornar um maravilhoso morador do quarto ao lado. Nada de deveres. Jogos e computadores. Nada de cama cedo. Conversas até altas horas. Quase renomeou meu cachorro de Torto, deixando até ele entrar em casa.... Fora as guloseimas preparadas para família, por causa do novo morador....

Foi com esse cara que eu ouvi, pela primeira vez, sobre comida japonesa. E que história estranha era aquela de comer peixe cru.... Também com ele, vi aquelas câmeras maravilhosas, cheias de recursos, olhinhos brilhando.... Novidade, era com esse cara.

Ele me acolheu em Sampa, várias vezes, e me levou para restaurantes, conversou comigo até altas horas, sobre a vida, os problemas, o jeito pisciano - louco - de ser. Se pudesse, ele dava o carro, a casa, a roupa do corpo para você. "Daniele, qual o problema? O carro é meu, eu faço o que eu quiser". Com a voz mansa, repetia os argumentos calmamente e era capaz de convencer o cachorro a miar....

Ele me ensinou, indiretamente, a importância do trabalho. Quem quer, corre atrás. E também não deixou de dizer, mais tarde, que o trabalho não é tudo. Para que eu nunca esquecesse de me divertir.

Admiração. Essa é a palavra para descrever aquela criança, miúda, magrela, olhando para aquele cara tão legal. E é assim que essa mulher se sente; uma criança, de novo, desprotegida, querendo lembrar de tantas boas vivências divididas.

Ah, meu querido Leandro, eu vou me lembrar de você em muitas risadas, muitas histórias, nos saltos de asa-delta, nas viagens, nas torres. Obrigado por ter me ensinado tanto. Vou ficar devendo a lição que não aprendo: a perda. E, por favor, coma algumas tapiocas com a vovó por mim...

21.5.08

Goodbye My Lover

James Blunt

Did I disappoint you or let you down?
Should I be feeling guilty or let the judges frown?
'Cause I saw the end before we'd begun,
Yes I saw you were blinded and I knew I had won.
So I took what's mine by eternal right.
Took your soul out into the night.
It may be over but it won't stop there,
I am here for you if you'd only care.
You touched my heart you touched my soul.
You changed my life and all my goals.
And love is blind and that I knew when,
My heart was blinded by you.
I've kissed your lips and held your head.
Shared your dreams and shared your bed.
I know you well, I know your smell.
I've been addicted to you.

Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.

I am a dreamer but when I wake,
You can't break my spirit - it's my dreams you take.
And as you move on, remember me,
Remember us and all we used to be
I've seen you cry, I've seen you smile.
I've watched you sleeping for a while.
I'd be the father of your child.
I'd spend a lifetime with you.
I know your fears and you know mine.
We've had our doubts but now we're fine,
And I love you, I swear that's true.
I cannot live without you.

Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.

And I still hold your hand in mine.
In mine when I'm asleep.
And I will bear my soul in time,
When I'm kneeling at your feet.
Goodbye my lover.
Goodbye my friend.
You have been the one.
You have been the one for me.
I'm so hollow, baby, I'm so hollow.
I'm so, I'm so, I'm so hollow.